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E os leigos?

1. Ainda existe em muitas pessoas a ideia de que a Igreja é constituída apenas pelo Papa, bispos e padres, o que não é verdade. E os leigos? Não são, também, eles, Igreja e em muito maior número do que o dos clérigos?

Entra-se para a Igreja pelo Batismo. Todos os batizados são membros do Corpo Místico de Jesus Cristo e nele têm uma função a desempenhar.

2. Os fiéis leigos são tão cristãos como os outros. Nem mais, nem menos. Ser leigo não é ser cristão de segunda e, muito menos, criado ou guarda-costas do padre.

Como os bispos, os sacerdotes e os diáconos também os leigos têm, na Igreja, por direito próprio, uma missão a desempenhar. Infelizmente, muitas vezes subalternizada ou esquecida. Talvez em resultado da clericalização da Igreja.

Recordo o discurso do Papa Francisco à Cúria Romana, em 23 de dezembro: «O clericalismo, cuja tentação – perversa – se insinua diariamente entre nós, sempre nos faz pensar num Deus que fala apenas a alguns, enquanto os outros devem apenas escutar e cumprir. O Sínodo procura ser a experiência de nos sentirmos, todos, membros de um conjunto maior – o Santo Povo fiel de Deus – e, por conseguinte, discípulos que escutam e, precisamente em virtude desta escuta, podem também compreender a vontade de Deus, que sempre se manifesta de maneira imprevisível.

Mas seria errado pensar que o Sínodo fosse um acontecimento reservado à Igreja como entidade abstrata, distante de nós. A sinodalidade éum estilo, ao qual, os primeiros a converter-se, devemos ser nós que estamos aqui e vivemos a experiência do serviço à Igreja universal através do trabalho na Cúria Romana».

3. A decisão do Papa Francisco, que criou o ministério do catequista e, em 23 de janeiro, instituiu leigos – homens e mulheres – naquele ministério e no do leitor, não deixa de ser muito significativa. Alerta para a importância da participação dos leigos na Igreja. Reconhece o valor do trabalho das mulheres na Igreja.

Desde há muito que fiéis leigos são acólitos e leitores e ensinam catequese, mas o rito da instituição dignifica esses cargos. Convida a pensar na forma como tais serviços são e devem ser prestados.

4. Serviços, sim. É esse o significado atribuído à palavra ministério. Ser ministro é ser um servidor e não um privilegiado. Exercer um ministério não é aproveitar o facto para se exibir, para se pavonear, para exigir um tratamento especial.

O ministro é credor do tratamento que deve ser atribuído a todos os filhos de Deus, e não há dignidade superior a esta: ser filho de Deus.

5. Todos, independentemente do credo que professemos, temos o dever de procurar ser perfeitos na execução das tarefas que nos competem. Sejam quais forem e onde forem. É uma questão de honestidade. De profissionalismo, como muitas vezes se diz. Fazer as coisas com consciência e competência. E as funções a desempenhar na Igreja não devem ser exceção.

Porque é que um leitor, por exemplo, não há-de saber pronunciar bem, dar o tom adequado ao texto que proclama, ler como quem interpreta o que lê? Sim, que isto de ler bem não consiste apenas em juntar letras nem em papaguear. Porque se não há-de apresentar de harmonia com a tarefa que vai desempenhar?

6. Isto, é evidente, exige formação, e é necessário querer adquiri-la e haver quem a dê.

Na Igreja que vivemos não há que ter medo de falar em catequese para adultos.

Sei haver paróquias onde há catequese para as crianças e simultaneamente para os pais. Catequese. Não haja receio da palavra. Quem não sabe vai ter vergonha de aprender?

Todos beneficiamos com a existência de cristãos que o são não apenas porque um dia os pais para eles pediram à Igreja o Batismo mas conscientes do que é verdadeiramente ser batizado.

E que todos, clérigos e leigos, sejamos cristãos cada vez mais esclarecidos agindo cristamente em todas as circunstâncias.


Autor: Silva Araújo
DM

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3 fevereiro 2022