As representações associadas aos estágios davam um livro. Cada vez que uma gralha se insinua num rodapé de um noticiário televisivo ou que numa qualquer instituição seja cometido um lapso, seja ele caricato ou de consequências desastrosas, as responsabilidades são quase sempre despachadas para um erro informático ou para a figura alegórica do “estagiário”. De modo recorrente, o novato que dá os primeiros passos no mundo do trabalho é remetido para as esferas da inexperiência, da ignorância, da ingenuidade, da inépcia e da incompetência.
Por arrastamento, é sistematicamente imputado ao sistema educativo um desfasamento entre a formação académica e as reais necessidades do universo profissional. Também as empresas e demais instituições não escapam ao juízo da opinião pública, sendo recriminadas por se aproveitarem de mão de obra gratuita ou barata, sem grandes cuidados com a transmissão de competências e ainda menos vontade em admitir novos assalariados nos seus quadros.
Tais acusações têm, por vezes, fundamento. Não podem, porém, ocultar a outra face da moeda.
Os estereótipos partem de um fundo de verdade, mas impedem de ver a realidade com maior nitidez. Não é por acaso que os termos “stéréotype” e “cliché”, que aludiam à noção de reprodução em série no campo da impressão e da fotografia, passaram a ser usados no advento da sociedade industrial e da produção em massa para denunciar ideias pré-fabricadas e preconceitos infundados. Embora seja uma representação redutora do real, o estereótipo não deixa de ser um marcador das nossas identidades sociais, culturais e profissionais.
É verdade que não faltam exemplos paradigmáticos com lugar cativo no anedotário popular e/ou no panteão dos erros dramáticos. Um estagiário da Google validou inadvertidamente uma pseudocampanha publicitária que viria a custar uma dezena de milhões de dólares à multinacional norte-americana (2018). Em Toulouse, um erro de manipulação de uma arma por parte de um polícia-estagiário custou a vida de um colega-instrutor (2017). Em Montreux, uma foto do pequeno Gregory Villemin, assassinado em 1984 – um dos mais célebres casos judiciais franceses não resolvidos – foi repescada na Internet por um estagiário para ilustrar um anúncio de puericultura (2013). Quando a Universidade Fernando Pessoa tentou abrir três cursos na cidade de Toulon, escudando-se numa autorização prévia enviada por e-mail, a Ministra francesa do Ensino Superior invocou um erro de uma estagiária (2012).
Embora verídicos, estes e outros exemplos alimentam lugares-comuns. Por estes dias, tenho-me dedicado a ler dezenas de relatórios de estágio, a analisar avaliações institucionais e a presidir a júris de defesa de relatórios. O curso de Licenciatura em Ciências da Comunicação da UCP-Braga – juntamente com um conjunto de órgãos de comunicação social, empresas e instituições – proporciona aos finalistas a oportunidade de contactar com o universo profissional, por meio de um estágio curricular de dois a três meses. Embora sempre possa haver falhas imputáveis à formação académica, aos próprios alunos ou a algumas instituições, este é dos processos que tornam a minha profissão tão gratificante.
Esta é a altura em que nos apercebemos do caminho percorrido, da maturação intelectual e pessoal da maioria dos alunos, mas também do seu acompanhamento e integração responsável por parte da maior parte das empresas e instituições regionais e nacionais envolvidas, quase sempre atentas à transmissão de procedimentos, competências e atitudes. Nem tudo são rosas, mas a maioria dos casos traduzem inequivocamente experiências proveitosas para os envolvidos. Também é por isso que a minha profissão é tão gratificante. É o que dá ter estagiários…
Autor: Manuel Antunes da Cunha