Uma notícia n'A Bola, ontem, fez-me recuar ao ano de 2007. Nesse verão recebi uma chamada do Rui Águas, à época, coordenador da formação do SLB, a questionar a minha disponibilidade para trabalhar para o clube lisboeta na área da prospeção.
Conhecia o Rui das reuniões de trabalho semanais promovidas pelo professor Jesualdo Ferreira, em 2002/03, com todos os responsáveis das equipas de formação do SCB, onde eu treinava os sub-17. No final dessa época saí do SCB pelo que, passados quatro anos, fiquei feliz por alguém se lembrar de mim para voltar a trabalhar no futebol. Acertado o contrato, passei a observar jogadores na zona Norte.
Um dia, 24 de novembro de 2007, em Prado, num jogo da equipa da casa contra a Escola de Formação Fintas, algo diferenciava um jogador desta última equipa. À qualidade técnica e inteligência tática, bem acima da média, acrescia uma excelente atitude competitiva. Sendo destro, não se atrapalhava quando usava o pé esquerdo, fosse em passe, remate ou drible, e demonstrava conhecimento de jogo assinalável para a idade, com tomadas de decisão assertivas e adequadas ao que o jogo pedia.
Posteriormente conversei com o pai e informei-o que iria fazer um relatório para que ele fosse visto no clube. Em conversa com o coordenador do Fintas, percebi que o atleta em causa treinava diariamente, em diferentes escalões, e era um aluno aplicado. Ainda nessa época desportiva já em 2008, foi treinar a Lisboa e a sua resposta ao convite para passar a integrar as escolas de formação do SLB, foi algo do género, “não estou interessado porque…sou portista”*.
O percurso, depois, na formação do clube do coração e nas seleções jovens é de todos conhecido, com resultados de relevo no clube e nas diferentes equipas nacionais.
Chamado à 1.ª equipa do FCP, foi pronto socorro em diferentes posições ajudando, e muito, à conquista do título nacional na época transata. Da sua ida para Manchester também tudo foi dito, e os que criticaram o seu amor ao clube, deviam relembrar a sua frase em 2008* e o que foi dado a conhecer através das páginas d’A Bola de ontem.
O seu 1.º ordenado no MU serviu para ofertar uma carrinha, adequada ao transporte de crianças, ao seu clube de origem, a Escola de Formação Fintas. Não sei se considere isto o GOLO do ANO, um enorme PASSE de LETRA ou, usando o nome do clube onde iniciou a formação, uma FINTA de GÉNIO. Tiro pois “o chapéu” à EF Fintas, aos estabelecimentos de ensino, ao FCP, à família e ao atleta. Só alguém com formação HUMANA superior seria capaz de um gesto destes, e esta, só se promove e adquire ao longo da vida, nos clubes, nas escolas e, essencialmente, no seio familiar.
Parabéns Diogo Dalot por seres um exemplo do que distingue os melhores do mundo, de todos os outros. Não é apenas o talento (no caso, futebolístico) nem o trabalho árduo, mas sim a conjugação de tudo isso num esforço contínuo e focalizado, alicerçado em princípios humanos de excelência que tu, com este gesto, demonstraste ter.
Autor: Carlos Mangas
Diogo Dalot: uma Finta de génio
DM
22 fevereiro 2019