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Despojado, assertivo e humilde

No texto do Evangelho do II Domingo do Advento, Ano A (Mt 3, 1-12), ergue-se, despojado, assertivo e humilde, João, o Batista, assim apelidado pelo facto de administrar o batismo, rito de purificação pela água, frequente em alguns grupos judaicos da época. Despojado, no modo como se alimenta e veste (v. 4: “João tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre”); assertivo, no apelo (v. 2: “Convertei-vos e acreditai no Evangelho”) e na denúncia (v. 7: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir?”); e humilde, na forma como se apresenta, face a Jesus (v. 11: “Eu batizo-vos com água, para vos mover à conversão, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e eu não sou digno de levar as suas sandálias”).

Tal como os profetas que o precederam e Jesus, cujo caminho prepara, João aparece ligado ao deserto, lugar da provação e do despojamento, mas também do encontro com Deus. É sugestivo que João apareça em sintonia com Jesus, dado que os dois iniciam o seu ministério com as mesmas palavras (“Convertei-vos, porque está perto o Reino dos Céus” (Mt 3, 2; Mc 1, 15)) e começam no deserto a respetiva missão (Mt 3, 1; 4, 1-11).

Se o modo frugal como João se alimenta (“gafanhotos e mel silvestre”) é, já de si, sugestivo, mais ainda o é o modo como se veste: “tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins” (v. 4), “o vestuário típico dos nómadas que usavam tecidos de peles de camelo ou cabra, compactos contra a chuva e o frio invernal, arejados e porosos com o calor” (G. Ravasi, Secondo le Scritture, Anno A, p. 17). Dessa forma se vestia também o profeta Elias (2 Rs 1, 8) e outros que seguiram o seu exemplo (Zc 13, 4), apontando para um estilo muito específico e facilmente reconhecível. A forma como João aparece caraterizado reforça a afirmação de Jesus, a seu respeito: “Quer acrediteis ou não, ele é o Elias que estava para vir” (Mt 1, 14).

O estilo de João contrasta claramente com o das autoridades do seu tempo que se vestiam de roupas elegantes e se alimentavam em grandes banquetes (cfr. Mt 11, 7-8: “Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Mas aqueles que usam roupas luxuosas encontram-se nos palácios dos reis”). A veste e a cintura apertada remetem para uma missão: questionar um certo modo de viver, voltado para os bens materiais e para a conjugação do verbo “ter”. João convida à conversão, a uma mudança de valores, a esquecer o supérfluo e a dar atenção ao essencial.

O apelo assertivo à conversão não sugere apenas uma mudança de mentalidade (o verbo grego metanoéô poderia ser lido apenas nesta perspetiva) da pessoa voltada sobre si mesma, mas uma mudança de vida da pessoa que se (re)orienta para Deus, como sugere o verbo hebraico shûb. A conversão é caminho de regresso a Deus, ideia muito própria do judaísmo primitivo, mas desconhecida da religião grega.

Além disso, João serve-se de uma linguagem de tons apocalíticos para reforçar a necessidade da mudança de pensamento e de atitudes: “Quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir?”, “o machado já está posto à raiz das árvores e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo”. Sendo os frutos a metáfora usada por Mateus para falar das boas obras (v. 8: “Produzi, pois, frutos dignos de conversão”), João está a sugerir que uma vida sem elas não serve para nada. “É ilusório apelar para a pertença ao povo de Deus, vangloriar-se de uma segurança baseada nos privilégios religiosos da raça hebraica, que tem Abraão por pai. Garantias desse tipo são totalmente excluídas. O homem será julgado a partir de suas escolhas e de suas ações” (G. Barbaglio – R. Fabris – B. Maggioni, Os Evangelhos (I), ed. Loyola, São Paulo 1990, p. 90).

Depois de o I Domingo do Advento ter feito um claro apelo à vigilância e a estar preparados para a vinda do Filho do homem (Mt 24, 42.44), o II faz sentir que a mudança de vida, em todas as suas dimensões, é o único caminho que nos prepara para a celebração mais autêntica do Natal de Jesus Cristo.


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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28 novembro 2022