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Democracia em resignação

Há quem se ache herdeiro moral e legítimo do regime. Sim, há os herdeiros de Abril. Os outros, os bastardos ou os renegados do sistema, os que não perfilham a linha cega das igualdades, são meras figuras de um contraditório que não querem que exista. Talvez só para o adornar, no momento. Para fazer de conta que a instituição funciona e que cria um campo de oportunidades igualitárias, em que todos se podem deslocar, em movimentos instintivos como numa manada acéfala ao sabor da correnteza de uma ideologia libertária que se arroga de amplas liberdades. Amplas liberdades, sim, emproadas de igualdades.

Conceito ambíguo, difuso, mas poderoso que condiciona a mente numa ilusão de uma verdade inatingível. Amplas liberdades, qualquer coisa de incompreensível à luz da razão da própria liberdade individual. Esta não conta. O ser não conta. As suas ansiedades não contam. O colectivo amorfo toma a dianteira e assume uma postura de passividade, perante as exigências de uma sociedade que quer pensar e reagir ao desconforto de uma visão de pensamento único.

Nesta histeria, quem desalinha é logo rotulado de “fascista” ou de qualquer coisa “fóbico”. E neste frenesim e do alto do palanque do poder e da vaidade, o maestro dá a nota e marca o ritmo. E todos vão no engodo. Assim, parece! Ali, em contraponto e desajustadas de um tempo que teima em não parar, estão plantadas as amplas liberdades com disfarces de igualdades, quando tudo não passa de um “Gulag” já conhecido e com almas exaustas e doridas, de mãos calosas a olhar para o vazio.

A outra democracia, a democracia das maiorias e da pluralidade, do pensamento livre e da expressão sem barreiras, da criatividade e do arrojo, do sonho e da liberdade de votar está gravemente dilacerada pela “magia” transcendental das igualdades e vacila sem nexo aos ditames dos partidos que se ufanam em construtores de uma utopia vazia e inconsistente. E lá estão eles de cardápio recheado, de língua afiada, de rosto crispado e de dedo em riste a marcar presença em vozeirões desmedidos, debitando um discurso de fobias e de mais igualdades.

Lá no fundo, naquele gesto, um ponto assente: votar. Votar para escolher. Assim mesmo. E talvez, para nada. Os donos da democracia endemoniada levantam as barreiras das igualdades e não permitem que a liberdade individual se enraíze e frutifique com os sabores da tolerância e das ideias livres. Por incómodo. Por miopia. Por arrogância. E depois, em momentos de êxtase, surgem mais questões que se envolvem nesta trama montada pelos arautos das novidades igualitárias. Que maiorias? Que liberdade? Que democracia? O voto? Para quê votar, se a abstenção, o desencanto e a resignação se agigantam?!

Sempre na ribalta, muitos cenários, simples ou complexos, reais ou ilusórios, paciente e habilmente montados, que predispõem os cidadãos para tentar entender este jogo das democracias que se desenvolve, agora, mais nos arranjos e nos rearranjos do que na vontade popular expressa no voto. É difícil de entender esta democracia tutelada por dogmas ou por preconceitos libertários que nos querem impingir como verdades absolutas, desaguando naquele mar estagnado da acefalia colectiva.

Democracia, conceito polissémico com uma carga fortíssima de ambiguidade que lhe retira a essência mobilizadora de se construir um modelo coerente, fluido e libertador dos estigmas de um tempo corroído pelas asperezas dos ditadores das palavras, das igualdades e das ilusões.

E no final, essa gente quer resumir a democracia a nada. O homem a coisa pouca. O voto vazio de sentido. E a liberdade se esfumando numa abrilada descolorida. Olhando para trás e para a frente, olhando com os olhos da mente, o que resta: talvez a resignação.


Autor: Armindo Oliveira
DM

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17 maio 2017