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Democracia e enriquecimentos ilícitos

Diz a sabedoria popular que a trabalhar não se ganha dinheiro ou melhor quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro, não tem tempo para enriquecer; ora isto, no fundo, quererá dizer que para se enriquecer depressa e bem, somente se consegue à custa dos almejados e abençoados cinco números e duas estrelas do euromilhões, as seis bolinhas do totoloto ou a taluda da lotaria; ou, mais raramente, uma choruda herança de algum parente brasileiro.

Mas afinal, se a coisa é assim tão séria e rara, qual será o segredo? Haverá algum elixir mágico que, da noite para o dia, faça engordar tanto cidadão, antes magrinho ou mesmo esquelético? Quem sabe, talvez somente umas abundantes doses de uns certos pozinhos de perlimpimpim, sobretudo à base de especulação, corrupção, negócios escuros, podem fazer o milagre.

Ninguém duvida de que é importante haver no país homens capazes de fabricar riqueza; porque um país rico tem de ser, à partida, um país melhor, todavia, se a riqueza é conseguida através de meios ilícitos e prejuízo do bem comum, então, o feitiço vira-se contra o feiticeiro e aquilo que parecia ser bom e útil não passa de uma faca de dois gumes; de um lado, muitos muito ricos e do outro lado, muitos muito pobres.

Igualmente se a aplicação dessa riqueza acumulada não existe ou é dificilmente conseguida, deixa de se praticar a necessária justiça social e distributiva que é uma das mais eficazes armas de combate à pobreza e à desigualdade; porque, mal vai um país que, defendendo os princípios básicos de democracia social, económico-financeira e cultural, consente que a pobreza se instale, se mantenha e venha a aumentar à custa da ineficácia dos meios fiscais vigentes ou da fragilidade das medidas económico-financeiras aplicadas.

Tem sido uma constante da nossa vida democrática consentir o enriquecimento ilícito a olhos vistos e, na mesma proporção, tanto haja quem empobrece ou na pobreza se mantenha, e mais grave e injusto ainda é ver a ostentação que se faz dessa riqueza, sobretudo quando as necessidades básicas da população (saúde, habitação, educação, emprego) tantas são e a vontade política não parece disposta a reger-se pelos valores da justiça social, da solidariedade e da igualdade – só estes capazes de impedirem a corrupção, a não transparência, a fuga ao fisco, o branqueamento de capitais e a exploração do homem pelo homem.

A meu ver, é na mudança de mentalidades, numa profunda revolução cultural do nosso povo que reside a maior aposta, o mais válido desafio da modernidade, de progresso e de bem-estar social; ademais, numa sociedade onde imperam os valores da justiça social e distributiva, da solidariedade e da igualdade não há lugar para exploração do homem pelo homem; mas, caso é para pensarmos e concluirmos que ainda estamos a léguas de se cumprir a democracia.

Talvez só homens descomprometidos político-partidariamente e, como tal, isentos, pragmáticos, patrióticos e voluntariosos possam desencadear a desejada guerra aos principais inimigos do progresso e da justiça social; todavia, isso leva o seu tempo e tem um preço a pagar – preço que custa a vontade esclarecida do povo – e mudanças estruturais na sociedade a serem feitas que permitam a tais homens abraçar a causa nacional.

Entretanto, enquanto o pau vem e vai, isto é, enquanto as necessárias medidas de controlo e rigor económico-financeiro e fiscal tardam, muito há quem aproveite e faça fortuna despudoradamente a coberto de interesses e métodos reprováveis, o que, no mínimo, não deixa de ser democraticamente escandaloso e obsceno.

Então, até de hoje a oito.

 

 

 

 


Autor: Dinis Salgado
DM

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19 abril 2017