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Nestes tempos de sufoco pandémico, duas prioridades assomam ao nosso espírito com selo de necessidade e tintas de urgência: «cura» e «cuidado».
Todos sentimos a ânsia de uma «cura» e ninguém está dispensado de prestar «cuidados».
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Não é em vão que «cura» e «cuidado» despontam como dois vocábulos com íntima afinidade e comum origem.
Tudo remonta ao latim «cura», que tanto deu para «curar» como para «cuidar».
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E, de facto, a «cura» resulta do «cuidado» que somos chamados a ter com o corpo e com o espírito. Ou seja, com a pessoa na sua totalidade.
Com a evolução semântica – registada ao longo dos tempos –, houve algumas «nuances» entre os termos.
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Enquanto «curar» se tornou mais uma acção sanitária, «cuidar» supera o âmbito estritamente clínico.
Ou seja, para curar alguém, é necessário «cuidar»: quer para evitar a enfermidade, quer para acompanhar a pessoa do sofredor quando contrai alguma doença.
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E dá-se até o caso de que «cuidar» pode envolver os chamados «doentes incuráveis». O «cuidado» também tem efeitos curativos, mesmo que tudo se passe no plano íntimo.
Pode haver «doentes incuráveis», mas nunca haverá «pessoas incuidáveis». De resto, para bem «curar é fundamental bem «cuidar».
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Como nos lembra o Santo Padre, na sua mais recente encíclica, não pode haver fronteiras nestas atitudes.
Porque todos somos irmãos, o amor ultrapassará sempre qualquer barreira.
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É por isso que este notável documento — a merecer leitura atenta e aplicação urgente — é um apelo à fraternidade, que tantas vezes esquecemos e negligenciamos.
O «mundo fechado» está afogado em «sonhos desfeitos aos pedaços».
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Inspirado em São Francisco de Assis, «o santo do amor fraterno», o Sumo Pontífice faz questão de apontar as debilidades da liberdade e da igualdade sem a fraternidade.
Só a fraternidade é curativa e cuidadora. Ela não se decreta; acolhe-se, acolhendo cada pessoa, cada irmão.
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É fundamental «recomeçar», passando de um «mundo de sócios» para um verdadeiro mundo de irmãos. O «descarte mundial», que tende a prevalecer, é um vício que urge vencer.
É, pois, pela esperança que temos de avançar, tanto mais que «Deus continua a espalhar sementes de bem na humanidade».Esta pandemia está a destapar — ao lado de pavorosos dramas — luminosos sinais de esperança. Tantas pessoas que são dons, que permanentemente se doam.
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Tem razão o Papa Francisco: «A esperança é ousada, sabe olhar para lá das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna».
Por conseguinte, não há alternativa: «Caminhemos na esperança»!
Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira