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Cuidado

Uma economia que tem dinheiro a girar sem a devida correspondência na produção, é uma economia a caminho duma bancarrota. Por isso, a “fartura” do momento, que a esquerda quer imediatamente distribuída pelos portugueses, não é o resultado duma economia estrutural, mas o reflexo de momentos circunstanciais: aumento das exportações e o aumento do consumo interno. Diz-se em propaganda partidária que se der às pessoas mais dinheiro elas gastam mais, logo incrementa-se a economia. Se o aumento de poder de compra revertesse sobre fabrico nacional, toda a riqueza ficaria em Portugal; mas o que se verifica é que os grandes gastos, automóveis, viagens, férias, combustíveis, são estrangeiros, logo a cada compra destes produtos é dinheirinho que não fica cá, é dinheirinho que se vai, como importações que na realidade são. Ter folga orçamental mais não é do que ter poupanças para as eventualidades. Se fosse em nossa casa seriam destinadas a uma doença, uma operação, umas obras, etc. Ficavam cativadas para estas despesas extras. Se falarmos como governo, estas folgas orçamentais têm, ou devem ter, o mesmo destino. Não concordo com a ideia de “chapa ganha, chapa gasta” ainda que politicamente saibamos que a economia que não chega a cada lar é um benefício que não existe para cada eleitor. Não podemos transformar as finanças portuguesas na cenoura que vai à frente do burro. É preciso interiorizarmos de uma vez por todas, que temos de viver de acordo com as nossas posses se não queremos correr o risco de passarmos a pedintes quando surgir uma emergência. Como aconteceu com os incêndios que tivemos de pedir dinheiro! Gastar para contentar os sindicatos é politicamente um erro económico-financeiro de gestão. Cativar para não dar é o mesmo que não dar; cativar para uma emergência é o mesmo que ser prudente. Receio que o atual governo quebre a boa gestão que vinha fazendo para satisfazer um trinómio anunciado: eleitoralismo, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins; são vozes que precisam de se manter reivindicativas com as eleições de 2019 à vista. Não enganam ninguém. Existe na mente de todos eles o eleitoralismo, embora o neguem. A economia portuguesa, que tão louvada tem sido pelos parceiros europeus, pode cair novamente em plano inclinado; vejo com alguma apreensão os créditos abundantes que os bancos estão a fornecer. Há um revivalismo muito perigoso que acaba depois em crédito mal parado. Cuidado, pois. Sabemos bem que um banco que não empresta é um banco que pode falir por fartura. Mas como diziam nos meus velhos tempos, dá que não peças. Escusado será dizer que a nossa economia está dependente de outras economias estrangeiras; é o que se chama de economia aberta; por isso se diz em economia que uma borboleta agitando as asas em Hong Kong, por exemplo, pode criar um tsunami em Lisboa; numa economia sujeita a outras, como a nossa, isto é, sujeita ao agitar das asas de borboleta, todo o sucesso interno é transitório e nunca será sólido porque não está alicerçado em potencialidades intrínsecas. Vejamos o que pode acontecer com qualquer país produtor de petróleo! Basta um petroleiro ser impedido de sair com os fósseis e logo as asas da borboleta fazem subir os preços dos combustíveis. Não há economias completamente fechadas, mas há outras, como a nossa, que é uma economia escancarada. Cuidado, pois, com as euforias dos sucessos económicos nacionais.
Autor: Paulo Fafe
DM

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4 dezembro 2017