Se auscultarmos vários indivíduos que levaram vidas extraordinárias em todas as medidas, há algo que todos dirão. Que, para eles, mais importante do que aquilo que receberam dos seus antecessores, seria o que teriam conseguido oferecer aos que lhes sucediam. Usamos a expressão legado como forma de encapsular essa vontade, transformada pela avizinhação do fim de algo, num momento concreto de abertura de novos capítulos, o que muitas vezes é, para aqueles que recebem esse encargo, tanto uma bênção como um ónus que querem ser capazes de carregar consigo.
A 26 de Setembro de 2021, há aproximadamente um ano, realizaram-se eleições autárquicas em todo o território nacional, das quais, no concelho de Braga, saiu mais uma vez vencedora a Coligação Juntos por Braga, com aproximadamente 43% dos votos.
Com a terceira vitória consecutiva no concelho, a Coligação soma 9 anos vividos num total de 12 até à próxima eleição. Ricardo Rio mantém-se, há quase uma década, ao leme de um projeto que prima pela dedicação e empenho de várias caras que continuam e continuarão a formar um legado que só cresce, assim como complexifica – e bem – o trabalho de todos os que virão a seguir.
Encontramo-nos, assim, num momento necessário de reflexão.
Numa época em que o país se encontra a viver os primeiros sinais concretos e alarmantes de um longo inverno demográfico, o concelho de Braga foi o que mais cresceu na Região Norte entre 2011 e 2021, além de, nos 10 municípios mais populosos do país, ter registado o maior crescimento no número de total de habitantes, que já ultrapassam os 193,000.
As explicações são inúmeras e heterogéneas, mas passam também, inevitavelmente, pelo papel dianteiro que o município tem tido ao criar políticas públicas que permitam que as famílias e empresas se sintam atraídas e se possam fixar na cidade de uma forma sustentada, criando raízes na mesma. O município definiu as suas prioridades, de uma forma clara, na criação de emprego, na captação de investimento e no desenvolvimento do tecido empresarial local, algo alcançado de forma evidente, por exemplo, pelo crescimento, aplaudido de forma alargada, do setor tecnológico, assim como da população jovem a residir na nossa cidade.
Com vista à internacionalização de Braga, houve um reforço e melhoria de infraestruturas, assim como incrementos na oferta cultural e turística, o que se comprova pelo número de dormidas na cidade no presente ano, que se situa aproximadamente nas 333.000, havendo um aumento histórico de dormidas de cidadãos estrangeiros, o que demonstra a crescente reputação da cidade pelo mundo fora.
São meros exemplos de quase uma década que transformou Braga e mudou substancialmente, para melhor, a vida dos que nela habitavam e dos que, entretanto, escolheram nela se estabelecer.
Contudo, e porque as cidades e as políticas públicas são organismos com vida própria que nunca estão terminados e que nunca devem ser considerados suficientes, há falhas e caminhos novos que é preciso trilhar e percorrer. Sendo Braga uma das poucas cidades com crescimento populacional sustentado, hoje enfrenta problemas aos quais têm necessariamente de ser dadas novas respostas. Na mobilidade, com a construção ou acabamento da tão necessária circular externa. Na problemática da habitação, com a concretização dos projetos enunciados na Estratégia Local de Habitação. Mas, sejamos francos e diretos, não há vontade e dinamismo que sejam suficientes sem a vontade do Estado Central, que continua apenas a olhar para Lisboa com primazia. Estas são prioridades imediatas que não podem ser, como tantas vezes no nosso país as políticas mais necessárias são, relegadas para um futuro longínquo.
Resta indagar, então, quem serão os destinatários deste legado que, em 2025, terá forçosamente de ter novas caras, sendo a resposta relativamente simples: os jovens.
Para a reflexão nos dilemas modernos e na sua resolução, a junção da irreverência e perspetiva inovadora dos mais novos com a experiência e maturidade dos menos jovens será a única combinação que trará um desenvolvimento ainda maior a Braga. A aposta terá, por isso, de passar forçosamente pela renovação de quadros executivos e pela promoção e dinamização de novos rostos nas freguesias, com uma aposta estruturada em jovens com um percurso legitimado no meio profissional, académico e associativo, para que possa ser assegurada uma continuidade do trabalho desempenhado durante 12 anos, assim como as melhorias necessárias para todas as problemáticas que existam e que, inevitavelmente, surgirão.
Os anteriores 37 anos em democracia, pautados pela governação socialista do município, foram suficientes para conduzir a cidade a um vazio de ideias e escolhas. Os seus protagonistas, parcos tanto em competência como em determinação de fazer mais e melhor, continuam atualmente a ser aposta num elenco que insiste em apresentar as mesmas soluções (ou a ausência destas).
Serão, por isso, necessários mais de 12 anos no caminho atual para permitir a manutenção do crescimento que alcançamos e para que sejam obtidos novos patamares no legado que será herdado no final deste período, transformando a nossa grande cidade, cada vez mais simultaneamente numa cidade grande.
Autor: Pedro Cerqueira de Araújo