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Construir a paz e viver em paz

1. A paz tem sido uma das grandes aspirações da Humanidade. Apregoa-se a paz mas tem havido quem não queira viver em paz e não deixe viver em paz. Já Caim não soube viver em paz com o irmão Abel (Génesis 4, 1-8). Todavia, ser construtor de paz é uma exigência que nos é feita e um imperativo que todos devemos aceitar. Viver em paz comigo e com os outros. Estar em paz e dar paz.

2. É um erro pensarmos que a paz só é necessária em territórios distantes. Na Ucrânia e noutras localidades. E as guerras que se travam perto de nós e até dentro de portas?

Pode haver guerra – e muitas vezes há – numa freguesia, num bairro, numa fábrica, numa família.

Quantas vezes, por causa das partilhas, há irmãos que se não falam! Quantas vezes, por julgarem que os pais favorecem mais um irmão, há filhos amuados! Quantas vezes, para conseguirem as boas graças do encarregado, há pessoas que difamam e caluniam! Não haverá pessoas que, sentando-se à mesma mesa, propositadamente se não falam?

3. Há um sem número de guerras a que é imperioso pôr cobro. É urgente construir a paz.

Isso exige que cada um se habitue a respeitar os outros na sua dignidade e nos seus legítimos direitos. Que cada um se habitue a ver no outro uma pessoa e não uma coisa e a tratá-lo como tal.

Às vezes há guerras porque cobiçamos o que não nos pertence. Porque somos orgulhosos e invejosos. Porque julgamos que somos mais do que os outros e queremos fazer deles nossos criados. Porque dizemos o que assim não é. Porque faltamos aos compromissos. Porque exigimos situações privilegiadas.

4. Pode acontecer de, também no nosso interior, não haver paz. Porque a consciência nos remorde lembrando passos errados que demos, palavras impensadas que dissemos, atitudes insensatas que tomámos, coisas que podíamos e devíamos ter feito mas por comodismo não fizemos.

Para andar de consciência sossegada não basta não fazer o mal; é imperioso praticar o bem que se pode e deve fazer.

Há quem não tenha paz porque, não contente com o que possui, anda de lado para lado, numa correria louca, para ganhar mais uns cêntimos.

Quando se deixam levar pela ganância ou pela inveja pessoas há que não sossegam nem deixam sossegar.

5. Jesus disse nas Bem-Aventuranças: felizes os que fazem a paz, porque eles serão chamados filhos de Deus (Mateus 5, 9). No envio dos 72 discípulos recomendou-lhes que saudassem as pessoas desejando-lhes a paz (Lucas 10, 1-9).

O cristão deve ser um fazedor de paz; um construtor de paz. É sua missão apagar incêndios e não ateá-los.

Para isso é necessário dominar os nervos. Não ferver em pouca água. Atribuir às coisas a sua verdadeira dimensão. Não ver ofensa no que não passa de uma brincadeira inocente ou de uma piada dita sem intenção de magoar.

É preciso não ofender os outros. E se alguém ofendeu, que tenha a humildade suficiente para pedir desculpa, mesmo que os ofendidos sejam pessoas que considera hierárquica ou socialmente inferiores a si.

É preciso dominar o egoísmo, a vaidade, as ambições.

As guerras nascem no coração das pessoas, como se lê na Carta de Santiago: «Cobiçais, e nada tendes? Então, matais! Roeis-vos de inveja, e nada podeis conseguir? Então, lutais e guerreais-vos!» (4, 1-2).

6. Uma coisa importante: saber dar o primeiro passo, sempre que haja qualquer amuo. Mesmo quando se está persuadido de que quem deveria romper o silêncio era o outro.

É tão fácil amuar e às vezes custa tanto desamuar! Custa tanto, às vezes, pedir desculpa e reatar o convívio que, precipitadamente, num momento de exaltação, se interrompeu!

Haverá melhor tranquilizante do que adormecer em paz com Deus, com os outros e consigo mesmo?


Autor: Silva Araújo
DM

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20 outubro 2022