A reflexão ponderada foi sempre a melhor arma para o exercício da Cidadania, um desafio urgente quando estamos a ser postos à prova da forma mais cruel. É a ela que devemos recorrer na dúvida quanto ao caminho que devemos trilhar: o da alienação ou a participação consciente nos destinos da comunidade onde vivemos. Na Europa, sopram novos ventos de esperança em plena crise pandémica e de identidade europeia, motivo suficiente para exercermos em pleno, mais do que um direito, um dever que a Democracia estimula e que a Liberdade consagra. É nossa obrigação deixar o armário onde se abrigam as nossas dúvidas, os nossos receios, as nossas inconstâncias, para arregaçar as mangas e dizer presente quando outros definem o ritmo das nossas vidas, sem olharem sequer para a realidade que importa.
Este exercício que a Constituição releva em particular nas eleições, não é um exclusivo de dias como o de hoje, é uma prática consciente que deve nortear a ação do Cidadão e da Cidadã, seja em que nível de participação for. Se se questionarem sobre a utilidade desta manifestação de princípio é porque se sentem bem no papel de inócuos em sociedade. Num momento de Verdade para a Europa, em que a Coesão Social passou a ser um pilar da intervenção política e os direitos das pessoas foram colocados no centro das atenções, cabe a cada um de nós dizer Presente na construção do Futuro. Somos parte integrante de uma sociedade instantânea, o que equivale a dizer que estamos dependentes da arma da Informação, mas também é verdade que estamos integrados no Tempo das Oportunidades e que este se esgota depressa quando nos manifestamos de forma distraída. A identidade europeia só se constrói se nos tornarmos parte dela e não meros espetadores. O caminho que diferentes gerações já percorreram juntos na construção da UE, não pode esgotar-se na inorganicidade latente em muitos dos movimentos sociais que existem, mas não impactam; são bonitos de se ver, mas limitam-se a consumir recursos, constroem discursos, satisfazem as necessidades egocêntricas, mas não produzem resultados mobilizadores. Por muito que esta possa ser uma posição incompreensível para muitos movimentos associativos, o poder de mudar está longe de ser assumido como faculdade plena da Cidadania. Assemelha-se, por vezes, a uma epifania: temos a perceção de algo, mas não somos capazes de exercer em pleno, muito por culpa do receio, da dívida, da manifestação arcaica da dependência que nos tolhe e nos faz desviar da importância de sermos pessoas nas suas múltiplas dimensões. É verdade que o caminho é espinhoso, sabemo-lo com frequência através de múltiplas experiências agonizantes, pouco próprias de um Estado de Direito. Mas é exatamente aqui, neste ponto de interrogação, que nos devemos questionar sobre se vale apena fazer de conta. O exercício da Cidadania também se apreende dos livros, dos jornais, da cultura do Conhecimento que, parecendo ser uma parábola icónica, é, pelo contrário, uma esdrúxula tentação para ganharmos a Oportunidade de fazer diferente, para assumir em plenitude o que é nosso por Direito e por Dever. Este é um momento de Verdade que nos exige de todos intervenção e disponibilidade. Sejamos francos: ser espetador em plena crise das democracias ocidentais, só acentua ainda mais esta necessidade de nos reconstruirmos para nos tornarmos úteis sociais. Leiam as diferentes políticas que se desenham na Comissão Europeia e perceberão que não há tempo para tibiezas, muito menos, para incertezas próprias do egoísmo. Este é um momento de Verdade para o exercício pleno da Cidadania; um tempo único e curto para fazer parte da solução e não do problema. Não acreditem na felicidade como se de um rebuçado se tratasse. Não há maior ilusão do que aquela em que reduzimos a nossa experiência ao sabor doce das circunstâncias. A vida também é amarga e é a sua constância no nosso quotidiano, que nos deve despoletar o desejo de afirmarmos as nossas convicções, as nossas ambições, a simples vontade de como Pessoas, exercermos a diferença. Só assim fazem sentido as palavras do sociólogo britânico T.H.Marshall quando definiu este conceito na história recente dos povos e que mostram como estamos atrasados:, “a cidadania moderna é um conjunto de direitos e obrigações que compreendem três grupos de direitos. “Os direitos civis característicos do século XVIII; os direitos políticos, consagrados no século XIX e os direitos sociais do século XX”.
Autor: Paulo Sousa