Em Roma, na época de Marco Túlio Cícero, séc. I a. C., não se pode falar propriamente na existência de partidos políticos organizados, à semelhança do que sucede actualmente. Contudo, e a partir das fontes históricas, pode inferir-se que haveria duas correntes de opinião fundamentais na Roma republicana, em torno das quais se agrupavam os senadores e os membros da ordem equestre: por um lado, os conservadores, se assim se pode dizer, designados os optimates, isto é, os melhores homens e que procuravam manter a tradição dos antepassados (mos maiorum) e os privilégios do senado, impedindo, assim, a ascensão ao poder dos denominados homens novos, oriundos de famílias afastadas da linhagem nobre. Não deixa de ser curioso observar que Cícero pertenceu ao número dos optimates. A par destes, Roma havia de conhecer uma facção que se lhe opunha e que foi designada por populares: eram estes a oposição à nobreza senatorial e podem ser designados por senadores progressistas. Como é natural, os populares defendiam o fim gradual do poder absoluto do senado e uma maior intervenção do povo (populus) no governo através das assembleias populares e do seu poder eleitoral. Se se fizer uma ponte para a actualidade, pode dizer-se que no Reino Unido ou nos Estados Unidos da América, o sistema político democrático se organiza tendencialmente de forma idêntica, havendo a possibilidade de alternância, grosso modo, entre conservadores e progressistas, respectivamente Partido Conservador (Conservative Party) / Partido Trabalhista (Labour Party) ou Partido Republicano (Republican Party) / Partido Democrata (Democratic Party).
Ora Quinto, depois de enumerar exaustivamente os diferentes grupos sociais e de sublinhar a sua importância para a eleição de Marco, vai fixar agora a sua atenção num grupo muito específico de eleitores: os homens nobres (homines nobiles), a quem é necessário pedir o voto com toda a atenção (Ii rogandi omnes sunt diligenter). E reforça Quinto: é necessário provar-lhes e persuadi-los de que nós sempre partilhámos as opiniões políticas da aristocracia (et ad eos adlegandum est persuadendumque est iis nos semper cum optimatibus de re publica sensisse) e de que poucas vezes buscámos o apoio dos populares (minime popularis fuisse). Mesmo quando o fez, isto é, mesmo se em alguns casos até parece que falou à maneira dos populares(si quid locuti populariter videamur), como sucedeu com a defesa do grande general Gneu Pompeu, em que pronunciou o célebre discurso “Em favor do poder de Gneu Pompeu”, isso apenas sucedeu com o desejo de o juntar a nós (id nos eo consilio fecisse ut nobis Cn. Pompeium adiungeremus), para que pudéssemos contar com homem tão poderoso na nossa candidatura, enquanto amigo ou, pelos menos, como não adversário (ut eum qui plurimum posset aut amicum in nostra petitione haberemus aut certe non adversarium). Com efeito, Gneu Pompeu Magno (106-48 a. C.), adversário de Júlio César na guerra civil, gozava de grande popularidade e influência política na época de Cícero; por isso, se por um lado o general romano era um valioso trunfo eleitoral a quem aspirava ao consulado, por outro, e dado que era malquisto entre alguns membros da nobreza, esta aposta revelava-se arriscada. E daí este jogo de cintura!
No parágrafo seguinte (I.6), Quinto continua nesta senda, isto é, volta a insistir com o irmão Marco na necessidade de ele se aproximar e identificar com o tradicionalismo da nobilitas. E é aqui que ele vai pôr a tónica na importância dos jovens eleitores, o que nos faz recordar o papel relevante das organizações partidárias de juventude na actualidade. Por isso, diz-lhe Quinto, usa todo o teu esforço para conquistares, para cativares o apoio dos jovens nobres (Praeterea adulescentis nobilis elabora ut habeas) ou para manter os que já lhe são fiéis (vel ut teneas studiosos quos habes). São eles que lhe vão trazer o tão desejado prestígio (multum dignitatis adferent). Não obstante Quinto reconhecer que Cícero já tem muitos do seu lado (Plurimos habes), é necessário não descurar a sua presença. Cícero deve certificar-se, trabalhar com tal arte de modo a que eles sintam, continua Quinto, que tu os valorizas, lhes dás importância, os aprecias (perfice ut sciant quantum in iis putes esse). E a rematar este primeiro capítulo, não falta uma chamada de atenção para os eleitores indecisos: se conseguires que os indecisos te venham a apoiar, isso te ajudará muito (Si adduxeris ut ii qui non nolunt cupiant, plurimum proderunt).
Autor: António Maria Martins Melo