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Choque frontal

Existem muitos exemplos de agentes desportivos (atletas, treinadores, dirigentes) que promovem, em seu redor, um constante conflito com todos os outros que não pertençam à sua “tribo”. Vivem, agem, como que a fazer prevalecer as suas opiniões, em que todos os outros estão equivocados, como existisse apenas uma opinião, a sua. O mundo de hoje vive em busca do reconhecimento, do poder, do egoísmo, da individualidade, da imposição de opinião, da remuneração imediata, consome-se sem restrição, fere-se sem piedade e agride-se sem reservas. As pessoas vivem a curto prazo. Muitos dirigentes desportivos preocupam-se com medidas imediatas, gerem os conflitos, sem construírem algo sólido, sem planear, sem delinear e definir ações de futuro. Reagem no calor da emoção e não apoiados na razão. Foi isso que fez e continua a fazer, o presidente do Sporting CP (SCP), Bruno de Carvalho (BdC). Como um pistoleiro desesperado, dispara contra tudo e contra todos, fere indiscriminadamente, sem medir atos, verbos, palavras, gestos, atitudes, consequências. BdC subiu na hierarquia do clube, começou na claque e acabou como presidente de uma das instituições desportivas mais respeitadas em Portugal. Ao longo deste trajeto, à frente do SCP, enfrentou muitas batalhas (é certo, nem sempre da melhor forma), fez renascer algumas modalidades históricas do clube, nomeadamente o voleibol, tornou muitas delas mais competitivas, fez grandes contratações, investiu, mas demonstrou, sempre, mau perder. Não é segredo para ninguém que, para ganhar é preciso fazer mais do que o querer. Michael Jordan proferiu uma frase que marcou o desporto mundial: “eu posso até ganhar um jogo, mas nunca conseguirei ganhar um campeonato, para isso precisamos de uma equipa.” Esta frase é um fortíssimo lema para qualquer clube. E BdC não a seguiu, provocou um choque frontal com muitas figuras internas e, mais grave, desferiu um ataque serrado à estrutura que melhor poderá representar o seu emblema: os atletas. Alimentar a sua individualidade, rompendo com o elo que pode unir o clube, foi um erro de gestão desportiva. Hoje, o clube está dividido em facções e poderá sofrer mais danos. A ferida abriu em Madrid, mas não terá lugar ou data para sarar. Gerir recursos humanos não é fácil. A liderança de um grupo de trabalho, um clube, é por si só uma tarefa difícil, e quando se lidera grupos/organizações em ambientes altamente competitivos ainda aumenta mais a intensidade e a complexidade. Gerir um grupo de pessoas, sujeitas à pressão dos resultados, em que perante um erro são sumariamente julgadas/penalizadas é, sem margem para dúvidas, um dos maiores problemas para se resolver. E BdC fez isso… no local errado. Para qualquer líder existem duas áreas nucleares da personalidade/intervenção que são fundamentais para atingir resultados: a exigência e a benevolência. Ou seja, os líderes devem assumir uma busca incansável da excelência, de exigência, de prontidão, de entrega, por parte de todos os elementos que tutelam, mas também devem colocar um fervoroso espírito humanista, de ajuda e de valorização do caráter, individual e do grupo. O “compromisso estratégico” de uma liderança deve basear-se em medidas que não resolvam um problema, mas que potenciem um processo de fortalecimento das suas estruturas.
Autor: Carlos Dias
DM

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13 abril 2018