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Carta do (Des)Concerto à Des(Ordem)

Cara, escrevo-te desconfortado com o que vejo e leio. À minha volta tudo o que é harmonia, eclipsou-se: reina a discordância, o desconchavo, a divergência e, no entanto, a vida continua para alguns e interrompe-se para outros, numa tal desordem da natureza humana que não sei o que faça. Sou otimista por natureza: onde outros vêm a incerteza ou o fim, eu vejo o princípio de uma nova vida, mas reconheço que é difícil despedir-me do fim que decretaste como um anúncio barato de solução lava-tudo.

Sempre olhei para ti como a barreira ética inultrapassável que sabia unir nos momentos difíceis, humilhando-se perante a realidade e apenas com a sabedoria dos teus aderentes, eras capaz de pacificar os mais indulgentes para contigo, numa trivela serena e inteligente perante a aparente “Bondade que desculpa o que é censurável ou importuno”.

Agora que começaste a perceber (espero) que a confusão e a balbúrdia não são boas conselheiras, peço-te, por esta via, que a atrapalhação com que defendes aparentemente a tua classe de curadores, retome o seu caminho, perante a emergência, não da ganância trapalhona, mas do exercício mais nobre que te devia ocupar a tempo inteiro: os outros e o seu direito a ter-te ao lado a tempo inteiro.

Caro, a tentação de nos pormos em bicos de pé (“Ordem dos Médicos quer divulgação de mapas de risco e comunicação mais clara” in Lusa) é grande e o sabor da temperança que sempre foi uma marca, apesar de desguarnecida, está pronta a receber-te de braços abertos, haja disponibilidade da tua parte para perceberes que não vale tudo: “A carta dirigida à ministra da Saúde pelo bastonário da Ordem dos Médicos e cinco dos seus antecessores enquadra-se num movimento mais amplo de intervenções de “influenciadores” nos meios de comunicação social e em meios universitários, todas com a mesma orientação e a mesma substância. Começam por enunciar dificuldades reais do SNS (…), ampliam-nas em tom alarmista (…) e chegam ao objetivo mercantil: perante tal caos, desorganização e risco, há que recorrer aos serviços privados” in Público. Ora, como já deves ter percebido, a tua Des(Ordem) é um desconcerto para os cidadãos que esperavam um pouco mais de recato da tua posição de força. Aqui chegados, desafio-te a pensares se não seria melhor entrares num processo de gentrificação, assumindo, se o pretenderes, que, na vida em sociedade e corresponsável, nem sempre é possível caçar com gato quando não se tem cão. Se te for difícil optar por tal caminho, sempre podes pôr alguma ordem à casa, assumindo que te transformaste na referência aristocrática de meados do século XVIII, que marcou a criação dos primeiros partidos políticos pelas elites económicas e sociais. E se nenhuma destas soluções te aprouver, não há como assumir que, afinal, o valor da vida vale um punhado de dinheiros públicos. A inevitabilidade que criaste e que conduziu já à tua saciedade, (“O SNS acaba de passar os primeiros 10 doentes com covid-19 para uma unidade privada à luz de uma convenção assinada na semana passada. Estão para breve novos acordos para responder à pressão da pandemia no Norte do país. Na região de Lisboa, só houve contactos informais in Público) terá de ser paga por mim e por todos os outros, sem que eu, lealmente, possa ser ressarcido da tua ganância. É claro que te afastaste dos partidos de massa, e possas assim ter dificuldade em perceber a realidade em que vives, mas não há nada como releres o teu Juramento de Hipócrates, para que contribuas para o concerto das pessoas e das coisas, que alimentaram o teu conhecimento de Hoje, com o outrora sacrifício e coragem dos outros. Sem pôr em causa o direito de escolha, desespero com a tua bondada cintilada, tão gananciosa como a formiga tão prepotente com a Cigarra. Termino esta Carta, cara Des/Ordem) com a melhor mensagem que um Homem deste tempo poderia deixar à reflexão comum: “Às vezes somos muito cruéis. Vivemos a tentação comum de criticar para satisfação pessoal ou para provocar uma vantagem pessoal. Às vezes, as crises da fraternidade devem-se à fragilidade da personalidade”, Papa Francisco, in Escrito na Pedra – Público.


Autor: Paulo Sousa
DM

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1 novembro 2020