Enviei-lhe, alguns dias depois do seu aniversário, um e-mail a dizer que lhe tinha deixado na caixa do correio um livro que poderia gostar de ler: o Diário de uma viagem a Portugal, de Dorothy Wordsworth. Falaríamos sobre a obra e sobre o que a filha do poeta William Wordsworth escreveu sobre Braga quando pudéssemos ter a próxima das nossas conversas regulares, felizmente incentivadas pelo nosso comum amigo, Dr. José Araújo, que foi presidente da Câmara Municipal de Terras de Bouro e governador civil de Braga, para que delas pudesse sair algum livro que homenageasse o médico excelente e o cidadão admirável.
As conversas foram sempre encantadoras. Depressa, tantas vezes, se tornavam impartilháveis, como convém às boas conversas. Foi sempre um prazer imenso escutá-lo a contar abundantes episódios de uma vida invulgarmente fascinante. O que, ao longo desses momentos, mais lhe apreciei foi, para além, evidentemente, dos exemplos de generosidade, dedicação e competência profissional com que tratou tantos meninos e tantas meninas, o espírito culto, inquieto e livre, a indomesticável coragem e a constante entrega em prol do que designava por “bem estar do povo”.
No início de Junho do ano passado, pouco depois de um dos nossos encontros, que, por regra, foram ocorrendo em alguma das salas do primeiro andar de A Brasileira, onde podíamos dispor de toda a privacidade, escrevi-lhe o e-mail que agora releio: “A vida oferece-nos privilégios extraordinários e inesperados. Ter podido hoje ouvi-lo dizer A Leão XIII, de António Nobre, foi uma rara distinção que não esquecerei. O poema, que agora encontrei, é muito tocante. Além do gosto, tenho de lhe homenagear a fresquíssima memória. Um grande abraço.”
É esse poema, pouco depois redescoberto na Antologia pessoal da poesia portuguesa, de Eugénio de Andrade, que recordo com saudade desse singular momento em que o ouvi, dito pela sua voz:
“Ó Padre Santo! Meu Irmão! Ó meu amigo / Do velho mundo antigo / – Dá-me consolação, e prova-me que há Deus; / Resolve-me a equação estrelada dos céus; / Admite-me ao Conselho amigo dos Cardeais: / Deixa-me ler, também, na letra dos missais! / Muito que te contar! Não conheces o mundo? / Nunca desceste, Padre!, a esse poço profundo? / Metido nessa cela ideal do Vaticano, / Há quanto tempo tu não vês o Oceano? / Nunca viste um bordel! Sabes o que é a desgraça? / Ouviste, acaso, o “pschut”! delas, a quem passa? / Sabes que existem, dize, as casas de penhores? / No teu palácio, há, porventura, amores? / Viste passar, acaso um bêbado, na rua? / Já viste o efeito que na lama imprime a lua? / Ouve: tiveste já torturas de dinheiro? / Já viste um brigue no mar? Já viste um marinheiro? / Que ideias fazes tu das crenças dos rapazes? / Já viste alguém novo, Padre? Que ideias fazes, / Santo Leão!, do Boulevard dos Italianos? / Recordas com saudade os teus vinte e três anos? / Ó Leão XIII! Ó Poeta, essa é a minha idade! / Como tu vês, estou na flor da mocidade! / Ainda não contei metade de cinquenta. / Começa-me a nascer a barba, o mundo tenta / A minha alma: ah como é lindo esse Demónio! / Nasci em Portugal. Chamo-me António; / Tenho sido um infeliz... / Um vento de desgraça atirou-me a Paris. / Em pequenino, Padre, ajoelhado na cama, / A erguer as mãos a Deus, ensinou-me a minha ama; / Sabia de cor mil e trezentas orações, / Mas tudo esqueci no mundo aos trambolhões... / Nossa Senhora te dirá se isto é assim! // – O que há-de ser de mim?”
Um grande abraço, muito grato.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes