Mesmo que não queiramos, temos a companhia indesejada da pandemia. Bem gostaríamos que já tivesse passado e, tal como a gripe asiática da minha adolescência, fosse um evento ultrapassado, embora, neste caso, ainda muito próximo dos dias que vivemos. Mas não é assim. E as perspectivas não se afiguram muito animadoras, porque, ainda hoje a Organização Mundial de Saúde alertou que, na nossa Europa, a situação é fortemente difícil, em virtude de estarem a aumentar os casos positivos de um modo vigoroso e inesperado.
Decerto que há países, ainda que rudemente tocados pelo vírus, que decidiram não voltar ao confinamento, como a Inglaterra, de acordo com informação recente. Nós começámos o estado de emergência ontem e, no dia de recomeço das actividades escolares por todo o país, sentimos uma inevitável incerteza interior, tanto mais que, em França, segundo noticiaram os meios de comunicação social, foram encerradas muitas escolas, certamente por se ter verificado o alastramento de contágios da Covid-19 entre a população escolar. Vivemos, assim, momentos de incerteza e de expectativa. Por um lado, não sabermos muito bem o que fazer nas circunstâncias actuais; por outro, o que nos reserva o futuro?
Aliás, toda esta situação, se não tivesse outra vantagem, mostra-nos bem como somos diferentes e como reagimos de modo muito diverso. Saímos à rua e encontramos muita gente com máscara. Sobretudo senhoras (pelo que me parece, sem qualquer investigação objectiva e rigorosa). Para quem a idade afecta já a soronidade auditiva, por vezes, o seu uso dificulta – e muito! – a percepção do que nos dizem. Decerto que o “mascarado” não se apercebe facilmente do drama de quem já não ouve bem. Há dias, por exemplo, a uma pessoa amiga, através dessa ocultação da boca que entaramela o som, perguntaram pela mãe. Surpreendida, explicou que o seu pai já fora para a outra vida há cerca de dez anos. Mas o interlocutor repetiu, aumentando o volume de voz: “A mãe! A mãe!”... Reconheceu a sua falha e tranquilizou a pessoa. Graças a Deus, apesar dos anos já terem entrado pelos noventa, continuava mais fina do que um sexagenário como ele. Despediram-se. O meu amigo estendeu a mão, inocentemente, mas recebeu, como resposta, uma cotovelada simpática. Ficou surpreendido e intrigado, mas depois, já quando o outro se afastara um ou dois metros, imitou o seu gesto, com uma cotovelada simbólica na sua direcção.
Mal dobrou a esquina da rua em que transitava, houve um novo encontro inesperado. Desta vez, porém, muito diferente. Deu graças a Deus por ser um tanto mouco, porque com quem se enfrentou amistosamente era alguém muito efusivo, que o abraçou com veemência, repetindo até à saciedade que se sentia satisfeitíssimo por esta casualidade de andarem pela mesma rua em sentidos opostos. Assim, além de se verem, foi possível aquele “abração” vigoroso! Claro que não usava máscara, porque as suas palavras, ditas em alto e bom som, faziam notar que ao pequeno almoço, certamente depois do café com leite acostumado, teria havido a inalação de um bagaço animador. Continuou a falar no mesmo tom, perguntando por toda a família, evocando os nomes com acerto e a relação de parentesco com exactidão. Aparentemente, não lhe escapava nada nem ninguém. Ao fim de dois minutos, chegou a despedida. O meu amigo, como bom aluno da situação anterior, ofereceu o cotovelo com simplicidade. O outro, porém, não se conteve e exclamou sempre em altos berros: “Entre nós, não há “cotoveladas”: só abraços!” E antes de que ele pudesse reagir, já o estreitava veementemente. E com longa duração, porque lhe observava de modo vigoroso, sem o largar: “Desculpa, esqueci-me de te perguntar pela tua tia Eduarda. Como está ela?” Era uma irmã da sua mãe, ainda mais idosa, que vivia num lar. Felizmente, só havia boas notícias...
Cada um é como é, costuma dizer-se. O que não significa que não procure tratar a Covid - 19 com as cautelas oportunas. Não exagerando, como manda o bom senso.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva