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Beato Carlos Acutis e Leonor Patrão: Verdadeiros Santos da porta ao lado

Coincidências inesperadas colocaram lado a lado duas vidas exemplares de seguidores de Cristo. De amor à Eucaristia e de devoção à Virgem Maria.

Há cerca de 40 anos que acompanhava a história da Leonor Patrão, das Marinhas, Esposende e me sentia honrado com a sua amizade e a oferta do melhor que tinha: a oração instante, sentida e confiante pelo Papa, bispos, sacerdotes e todos os que se recomendavam às suas preces. Sem poder sair do seu leito, noite e dia, escondendo o sofrimento que a atormentava, conseguia transmitir uma paz, serenidade, bonomia, encantamento, que nos deixava maravilhados por podermos desfrutar de uma tal beleza de alma que nos interpelava ao superamento.

Nos últimos 18 meses, o calvário trasladou-se para os hospitais e os cuidados continuados. Nunca a tinha visto chorar, apesar de todas as limitações que a prendiam a uma cama, paraplégica. Vi-a quando a mandaram de Barcelos para os cuidados continuados em Melgaço, minha terra natal, a mais de 130 quilómetros! A separação da irmã Lurdes, que sempre a acompanhou desde criança e que dela ficou a tomar conta por inteiro desde que ambos os pais morreram, essa separação doeu-lhe profundamente. Mais ainda quando, já em Darque, mais perto fisicamente, estava impedida de ter visitas da irmã e familiares por causa da pandemia! E sempre a oferecer a Deus todos os sacrifícios e lágrimas, numa santa conformidade com desígnios tão insondáveis, que passaram pela amputação das duas pernas no Hospital de Viana e mais uma operação no Hospital de Braga. Foi sofrer horrivelmente até ao fim. E nunca se revoltou. Pelo contrário, no meio da maior dor e solidão, conseguia sorrir e animar quem a visitava, mesmo que por videoconferência.

Faleceu no mesmo dia e mês em que tinha nascido há 78 anos: 8 de Outubro! Caso para dizer que nasceu para morrer, mas morreu para ressuscitar para a Vida de Plenitude em Deus e com Deus para todo o sempre. No funeral, estivemos 6 sacerdotes, mas outros mais enviaram mensagens. Um dos que melhor a conheceu e com ela privou afirmava que via nela mais méritos para ser instruído um processo conducente à canonização que a própria Beata Alexandrina de Balazar que ela, aliás, ainda visitou antes de ter o acidente de trabalho que a tornou paraplégica. O padre Avelino Filipe, que é pároco das Marinhas desde Setembro de 1962, recorda-se bem do acidente na saibreira e foi dos que mais a acompanhou, pois fazia questão de lhe levar pessoalmente a comunhão com assiduidade. E testemunhou como houve bispos e sacerdotes que a visitaram e ficaram marcados com o seu exemplo.

No dia seguinte ao do funeral, era declarado Beato Carlos Acutis, o jovem italiano de 15 anos que, já em vida, 'converteu' a sua mãe da indiferença a uma vida intensa de oração e amor à eucaristia, bem como o mordomo da casa que, sendo hindu, pediu para ser baptizado e se fez cristão pelo exemplo de vida que o jovem Carlos lhe dava. Um jovem apaixonado pelo futebol, amigo dos colegas, mas sobremaneira próximo dos que mais precisavam. Um apaixonado pela informática, e que a colocou ao serviço da difusão dos verdadeiros valores e a beleza do Evangelho. Um jovem com tal amor à Eucaristia que lhe foi concedida dispensa para poder fazer a 1.ª comunhão aos 7 anos. E que definiu a eucaristia como a sua autoestrada para o céu. Um jovem que incentivou a sermos sempre originais e não fotocópias desbotadas. Apaixonado de Francisco de Assis e que pediu para em Assis ser sepultado. E lá decorreu a celebração da Beatificação, como na semana anterior ( dia 3) tinha decorrido a assinatura da encíclica «Fratelli Tutti», do Papa Francisco, que dele falou como exemplo a seguir na Exortação apostólica «Cristo Vive», nºs 104 a 107!

Pena que, muitas vezes, como refere o Papa na mencionada encíclica: «ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios». (n. 65) E pior ainda quando isto se passa com quem, frequentando a Igreja, não é capaz de visitar a familiar doente, ali mesmo ao lado! E nem sequer lhe telefona durante anos! Com razão acrescenta o Papa Francisco: «Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano».

Para mim, tenho especiais intercessores a quem recorrer com ternura e carinho: um, Carlos Acutis, beatificado no meu dia de aniversário e com o mesmo nome –; outra, a Leonor, pela vivência e testemunho de vida de quem fez das pedras duras do caminho de vida, degraus de altar da mais sublime eucaristia não sacramental em que me foi possível participar durante mais de 40 anos: – a Leonor!


Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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17 outubro 2020