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Bandeira a meia-haste

Foi um congresso sui generis aquele em Girensun, cidade turca junto ao Mar Negro, a 140 km do aeroporto de Trabzon. Após uma viagem conturbada, eram 03h00 da manhã quando finalmente cheguei ao hotel reservado pela organização. O funcionário – que apenas falava turco – entregou-me a chave de um quarto com uma indicação que, em breve, viria a entender. Subi sem demora para aproveitar as cinco horas de descanso que restavam. Não tinha sequer acendido a luz do quarto, quando um ronco sonoro escoltado por um estridente suspiro ecoou em toda a divisão. Ainda mal refeito do sobressalto, ouvi mais dois ou três andamentos da mesma melodia, antes de sair em bicos de pés.

Ao chegar à receção, tentei explicar em inglês, francês, espanhol – e até em linguagem gestual que fui capaz de improvisar – que havia um engano. Mesmo assim, não havia meio de me darem outra chave. Até que o funcionário me conduziu ao mesmo quarto, acendeu a luz e apontou para a cama vazia, enquanto o outro hóspede continuava a ressonar, imperturbável. Fiz sinal que jamais dormiria ao lado de um estranho. O meu interlocutor virou as costas, dando a entender que se eu quisesse ir embora o problema era meu. De nada valeram os protestos. Exausto de doze horas de viagem, capitulei e deitei-me naquele quarto de hotel, em Girensun.

Hora e meia mais tarde, um telemóvel acordava-me ao som do azan, o apelo do muezzin à oração da madrugada. Durante largos minutos, fui embalado pela recitação das fórmulas corânicas que acompanhavam as repetidas inclinações do meu vizinho, ajoelhado em direção à Meca. Soube mais tarde que se tratava do responsável de um centro cultural turco de um país báltico, orador no mesmo congresso. E também ficaria a saber que quase todos os outros intervenientes – mais de uma centena vindos do mundo inteiro – tinham igualmente sido surpreendidos com a inusitada partilha de aposentos.

A caminho do pequeno almoço, desci de elevador com um sexagenário indiano impecavelmente trajado com vestes tradicionais, encimadas por um imponente turbante. Mal soube que eu era português, a sua expressão cordial deu lugar a um semblante carregado. Depressa percebi a razão da súbita mudança. Visivelmente agastado com o passado colonial entre os dois países, lançou-se numa acalorada diatribe contra a ação dos Portugueses na Índia, à espera de uma reação minha. Ainda ensonado e em jejum, despedi-me apenas com um sorriso de circunstância, sem dar troco ou opinião.

Depois do pequeno almoço, um autocarro conduziu-nos à Universidade de Girensun, onde fomos recebidos com pompa e circunstância pelas autoridades académicas, municipais e comunicação social. Para surpresa nossa, após os discursos de boas-vindas, cada congressista foi convocado ao palco para saudar a assembleia em representação do país respetivo, sendo depois encaminhado em direção à tribuna de honra. Um dos últimos a ser chamado, alinhavei uma breve alocução. Quando me dirigi ao lugar que me tinha sido atribuído, deparei-me com a bandeira da India.

Com efeito, fora distribuída a cada participante a bandeira do seu país que deveria agitar, no final da sessão, enquanto um grupo de música tradicional enchia o auditório com sonoridades locais. No meu caso, tinham-se enganado de lugar ou de bandeira. Decididamente, não era o meu dia. Na altura devida, lá levantei o braço, hasteando o pavilhão indiano. Sorrindo, pensei no episódio da manhã. Talvez quisesse o destino que expurgasse os pecados dos meus antepassados de que me responsabilizara o interlocutor do elevador. De súbito, os nossos olhos cruzaram-se. Lá estava ele do outro lado da tribuna, manifestamente contrariado, com a bandeira das Quinas nas mãos. Enquanto todos levantávamos bem alto as bandeiras, o congressista indiano mantinha teimosamente o símbolo português a meia haste.

*Professor da Universidade Católica Portuguesa – Braga

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Enquanto todos levantávamos bem alto as bandeiras, o congressista indiano mantinha teimosamente o símbolo português a meia haste.


Autor: Manuel Antunes da Cunha
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19 setembro 2020