Assisti, no passado fim de semana, a algo difícil de compreender num país que celebra a democracia todos os anos.
O fenómeno desportivo é para mim, como já disse aqui nestas crónicas diversas vezes, um instrumento de comunicação poderoso e que faz arrastar multidões.
Fazendo uma avaliação assertiva dessa qualidade única, podemos até ajudar a potenciar o desporto em termos económicos, trazendo inúmeras mais valias para as sociedades onde atuam.
É o caso do futebol profissional que, com inteligência, fez crescer uma dinâmica empresarial em seu redor, muito idêntico ao que assistimos há largos anos com modalidades como a Fórmula 1, o Baseball ou mesmo o Basquetebol Americano. Neste momento, o futebol está também no topo da pirâmide e ultrapassou até algumas destas modalidades anteriormenmte referidas.
Mas há palavras que estarão sempre ligadas ao desporto, independentemente da grandeza da modalidade ou das pessoas envolvidas: respeito, ética, liberdade, fair-play, solidariedade, paz...
Parece um "cliché", mas pelo que assisto diariamente, nunca fez tanto sentido relembrar estes valores olímpicos numa era que sofre transformações sociológicas a uma velocidade alucinante.
Assistimos nos últimos tempos em Portugal, impávidos e serenos, a um discurso de ódio entre os principais clubes desportivos da atualidade. O discurso vai sempre além do campo desportivo e, com ataques pessoais aos envolvidos (usando-se mesmo, de vez em quando, nomes impróprios e maldosos para se diminuir quem se pretende atacar) ultrapassamos o risco do viver em liberdade. A liberdade conquista-se, respeita-se e, acima de tudo, não se usa como arma de guerra. Confunde-se muitas vezes a liberdade com o dizer o que nos vem à cabeça. E,por vezes,isso é uma pedrada a essa mesma liberdade.
Atacar com "extremos" pode não ser a melhor solução para a vitória.
Sou adepto de um clube, o grande Braga, mas respeito e convivo com amigos adeptos de todos os outros, mesmo aqueles que nos são mais rivais na história. Mas jamais deixamos ultrapassar a diferença clubística ou opiniões para vivermos numa situação de conflito entre todos. O desporto não é isso.
O último discurso de um presidente de uma grande instituição desportiva de Portugal, exigindo aos seus adeptos o não consumir nenhuma comunicação social nacional, a solicitar a não participação em debates televisivos e só assistir a notícias produzidas pelo seu própio canal é, no meu entender, não só um ataque gravíssiomo à conquistada "liberdade de escolha" que defendemos como também, e pior ainda, à inteligência humana em pleno Séc. XXI.
Bastaram poucos minutos para que esse repto presidencial se traduzisse em atos violentos para com os profissionais da comunicação social.
Alguém que é "amado" pelos seus adeptos pelo trabalho de gestão que faz pelo seu clube, como as percentagens de votos nas suas ideias traduziram, não pode usar essa liderança para atacar. Um dia, mais tarde, de nada lhe servirá o apelo ao "amor" se for necessário isso!
Os adeptos e amantes desportivos não podem, nem devem, confundir sucesso desportivo com o "vale tudo" para ganhar. Apelar a desordem nunca foi nem será solução. Parece que a tática passou a ser de ataque com "extremos"...
Ouço muitas pessoas a dizer que "o mundo da bola não é para passarinhos..." Não consigo perceber bem esta frase pois tenho a certeza que este mundo, na sua globalidade, é não só para os "passarinhos" mas também para todas as restantes raças que nele coabitam.
Desejo, enquanto amante do desporto e do futebol em particular, que os órgãos máximos nacionais governamentais atuem enquanto é tempo. Prevejo, com este discurso de ódio que vemos todos os dias, que a violência se instale nos nossos fins de semana e que a ética e fair play, que tão bem o nosso Governo defende em campanhas e projetos, se esvazie rapidamente perante isto a que assistimos sem nada fazer.
Há países onde isto aconteceu e que, infelizmente, só acordaram e aplicaram medidas severas quando as tragédias aconteceram. Por isso, espero que os nossos políticos nacionais ligados ao Desporto sejam preventivos e atuem pela melhor defesa do interesse nacional: a paz e respeito entre toda a população.
Um abraço e até à próxima crónica.
Autor: Ricardo Sousa
Atacar com Extremos
DM
21 fevereiro 2018