Entre os vencidos do último acto eleitoral, e sem estar em questão a sua substituição, está o Presidente da República, considerado por alguns, talvez muitos, como co-responsável pela crise política, que saiu derrotado do processo, face aos resultados saídos do escrutínio popular. Não perderá prerrogativas, que essas são-lhe atribuídas pela Constituição, mas perderá influência. O protagonismo passará a ser todo do primeiro-ministro do governo com o apoio da maioria absoluta do Partido Socialista. Marcelo não terá espaço para brilhar diante de um Executivo com poder, com muito poder; com tanto, que até assusta. O povo decidiu e pode até sentir-se realizado, logo, vencedor, mas não tenho que concordar com a maioria que entendeu ser preferível colocar quase toda a esperança de um lado só. Pessoalmente fiquei apreensivo, mais do que triste, e com um sentimento de insegurança e receio do futuro. Considero que todos perderemos com os resultados das eleições. Prevejo que serão prejudiciais, como foram de outras vezes. A maioria absoluta acabará por prejudicar o governo e o Partido Socialista; e o país também perderá.
É verdade que haverá maior estabilidade, igual à maioria absoluta que apoiará o governo de Portugal, mas o Executivo ficará entregue à indiferença de sugestões e propostas que não sejam as suas. As palavras de hoje podem até dizer o contrário, mas a realidade será traída rapidamente pelos interesses e pelo conforto de se não ouvir ruído. Mas, haverá ruído nas ruas.
Com um resultado eleitoral como o que saiu das legislativas fica tudo mais simples. O que o governo decidir será tudo obra sua e ninguém fica prejudicado. Nenhum partido ficará obrigado a apoiar os Orçamentos socialistas – por exemplo, Rio tinha-se comprometido a fazê-lo no caso de ser o Partido Socialista a ganhar – pelo que não haverá condicionamentos nem prejuízos como os que, teimosamente, tanto os bloquistas como os comunistas aceitaram ao jeito de masoquistas. O Partido Socialista deixará de ter oportunidade para secar como secou paulatinamente os seus parceiros de esquerda durante seis anos.
Outra consequência óbvia é que o próximo Orçamento de Estado terá aprovação certa. Passará, mesmo que agrade apenas aos deputados socialistas. Seja o mesmo do bloco espiral mostrado com gáudio durante a campanha eleitoral, seja outro qualquer. Tenha virado ao centro ou recue imenso nas intenções anteriores. Deixe dúvidas não explicadas ou seja até mais liberal do que qualquer outro orçamento que fosse apresentado por um governo de um partido à direita do Partido Socialista. Uma maioria absoluta tem muita força, mas também muitos perigos.
Agora que Costa conseguiu o que quis, talvez decida explicar por que razão Portugal foi ultrapassado durante a sua governação anterior por vários países que entraram para a União Europeia depois de Portugal, mas talvez continuem a faltar-lhe argumentos convincentes.
Um novo horizonte para o país ficará adiado. Vamos ter um pouco mais do mesmo, menos mastigado, é certo, que não haverá empecilhos na negociação, mas nada de substancialmente diferente. Alguns preconceitos continuarão a limitar as opções económicas.
Nem tudo serão rosas. Muitos dos slogans que serviram a campanha eleitoral acabaram com ela. Aparecerão os espinhos que os protagonistas esconderam para que o povo aderisse à cantiga. As más notícias acabarão por chegar e muitos levarão então a mão à cabeça e tomarão consciência do erro, mas será já tarde. Decididamente e sem relutância, Costa acabará por governar menos à esquerda do que nos últimos seis anos, talvez um pouco ao centro, e isso bastará para que muitos eleitores vejam rapidamente goradas a suas expectativas imediatos em votar no Partido Socialista, mas talvez Costa consiga dourar os espinhos. Maiorias absolutas não dão resposta aos problemas dos portugueses, apenas facilitam a vida de quem governa.
Autor: Luís Martins