twitter

As minhas memórias de Veríssimo Serrão – 2.ª parte

8 - Uma visita à Academia Portuguesa de História). Em data que não sei precisar, ainda nos anos 90, e após várias minhas idas à sua residência na Portela das Padeiras (a oeste de Santarém), o prof. Veríssimo Serrão convidou-me a visitá-lo em Lisboa. Os seus afazeres de presidente da Academia obrigavam-no a nesse dia permanecer nessa instituição. E disse para eu aparecer por lá, para trocarmos impressões sobre os assuntos que me interessavam. Assim fiz. E ele aproveitou para mostrar as instalações, onde referenciou a presença de alguns doutos colegas, com a naturalidade que se adivinha. A certa altura encontrava-se lá sentado, num canto algo sombrio, nada menos que o para mim muito admirado prof. José Pedro Machado, autor do Dicionário Onomástico e Etimológico (em 3 volumes), que eu havia comprado anos antes. “Olhe, aquele é o Pedro Machado; venha aqui ver (uma outra coisa qualquer…), “dizia ele com a indiferença do director em relação a um “funcionário” que vê todas as semanas… Confesso que, nessa altura, eu ainda ambicionava um dia estar ligado a essa nobre Academia, apesar de as minhas habilitações serem no campo do Direito. Bem, aquele que foi conde de Oeiras desde 1759 (e marquês de Pombal desde 1769) também era membro, desde 1733 (aos 34 anos), por um favor do conde da Ericeira; e apesar de ainda ter menos currículo para tal…

9 - Um “padrinho de peso” para ser aceite no Jornal de Notícias e no Diário do Minho). Para a minha ansiada efectivação como colaborador do JN (do Porto), então o maior jornal do País, com tiragens superiores a 100 mil exemplares, muito contribuiu a opinião bastante favorável do prof. V. Serrão (expressa numa carta, de que conservo a cópia) em que ele dizia que este humilde servo, que ora vos escreve, era pessoa de “boa razão” e de “sólida cultura” (desculpem relembrar isto, mas vindo de quem vem…). Sendo Serrão um homem conotado com a Direita, foi ainda mais útil a influência de um homem da casa, forçosamente de Esquerda (e pró-soviético), o jornalista César Príncipe, natural do Gerês, célebre crítico de Arte; e que foi o 1.º (e único…) jornalista português a entrevistar, em Moscovo, Gorbátchov, por 1990.

10 - Em 1998, Veríssimo Serrão esteve em Braga). O atrás citado César Príncipe era parente do antigo director do Diário do Minho (e mais tarde, presidente da Rádio Renascença), o notável cónego João Aguiar Campos, a quem daqui envio votos de boa saúde. Em 98, o então padre João era o nóvel director do DM; e pessoa de ideias abertas a opiniões de colaboradores que não excedessem as baias que um jornal como o DM impunha. Sendo assim meu propósito também colaborar no jornal da cidade que foi capital de Suevos e de Romanos, o prof. Serrão decidiu em 98 apresentar-me ao senhor cónego Melo, então vigário-geral da Arquidiocese. Tal aconteceu num sarau em Braga, em que ambos estiveram presentes. E que deduzo, terá ajudado à minha aceitação. Serrão e o cónego Melo Peixoto (e o meu venerável prof. em Lisboa, Soares Martínez) haviam sido companheiros de angústias, na sequência da Revolução de 74.

11 - Um jantar com Cavaco e a teoria das “Federações Intercontinentais Metropolitanas”). Um dos factos da minha vida que nunca esquecerei, foi o de o prof. Serrão ter atrasado 2 horas a sua partida para uma reunião dos mandatários distritais da candidatura de Cavaco Silva à presidência da República (em 96, depois da derrota pelo esquerdista J. Sampaio). Serrão atrasou-se só para me ouvir resumir um meu ensaio, de cerca de 700 páginas, sobre Política Internacional. Que gabou bastante, mas que nunca me decidi a publicar, uma vez que fôra escrito pouco antes de 1990, antes da queda da URSS e da África do Sul. A sua revisão daria muito trabalho, mas não a excluo.

12 - Um almoço com a minha família paterna, em Santarém). Como disse atrás, eu sou 1 oitavo, de Santarém, mas pelo lado da minha mãe. Contudo uma das minhas muitas primas do lado paterno, Margarida (de Lisboa), casou com o eng.º Vasco Sá Nogueira (descendente de um irmão do marquês de Sá da Bandeira) e tem 3 filhos. Ora este meu primo era filho de um colega de liceu do prof. Serrão. Daí que o professor aceitasse estar presente numa das nossas reuniões (de 2 em 2 anos) que, desde 2003 se vêm realizando em locais alternados de Portugal. No caso, na pequena quinta, a oeste de Santarém, onde mora a Margarida. Dessa tarde de sol, as únicas fotografias em que estou ao lado de Serrão; eu e muitos primos.

13 - Frases e gestos característicos). As minhas visitas estenderam-se por mais de uma década. O professor acompanhava-me sempre até à rua e apreciava sempre o carro. “Então, ainda vai hoje para o Porto?; “não esqueça a sua malinha” (a pasta com os meus papéis). Ou então, falando com o filho: “logo, ainda vamos à vila” (a Santarém). Outra frase (e com esta não concordo por inteiro, porque é usual nas conversas entre amigos e não ofende): “elogio em boca própria, é vitupério”.

14 - Diferenças). Serrão, um ancião que no campo do matrimónio não desdenhou arriscar 2 vezes, estranhava imenso que eu não retornasse ao meu namoro com a tal beldade de Abrantes (de quem me mantive amigo e que comigo o visitou 2 vezes). Porém ela, uma neta de Pompeu e dos visigodos, era demasiado livre para o meu gosto. Foi pena…


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

DM

13 outubro 2020