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As lições de 2020

No findar de 2020, muito se disse acerca deste ano tão surpreendente quanto atípico. A maior parte dos comentários saldavam-se por um teor negativo: “veio com defeito”, “ano de má memória”, “um ano para esquecer”, “um ano para riscar do calendário”. Por um lado, percebo as razões, por outro, parece-me que se trata de afirmações exageradas e injustas. Não sei mesmo se não preconizam uma fuga para a frente, esquecendo que, do positivo e do negativo de cada ano, podemos colher lições para o ano seguinte. Não o fazer em relação a 2020, é hipotecar 2021!

Convém, antes de mais, recordar que o ano que findou sucedeu a um outro, próspero e promissor, a diversos títulos. Talvez por isso caiamos no erro de sobrevalorizar o primeiro em detrimento do seguinte. Para que não sejamos injustos nem acríticos na avaliação, hipotecando o futuro por desconsiderarmos o passado, convém trazer à memória as lições de 2020, apesar dos problemas e dificuldades que fizeram dele um ano surpreendente e atípico.

A pandemia e o consequente confinamento fizeram com que se valorizasse mais a casa, os laços e os afetos familiares. Se é certo que uma mais prolongada convivência gerou tensões e problemas, também é verdade que foi uma oportunidade para reforçar laços familiares e refazer afetos fragilizados pela pressão de uma vida vivida no palco da agitação e da exigência social e profissional, tendo em vista uma carreira de sucesso, uma dedicação exemplar e uma recompensa exponenciada.

Os cuidados de saúde e de higiene a que a pandemia nos obriga (etiqueta respiratória, lavagem das mãos, distanciamento social) perdurarão nos nossos hábitos e costumes, mesmo se não observados com tanto escrúpulo e rigor. Desse modo, poderemos viver de forma mais saudável e evitar esta e outras doenças contagiosas.

Entretanto, ao longo do último ano, houve formas de estar e atingiram-se objetivos que não podem ser simplesmente esquecidos ou desvalorizados. Por um lado, foram muitos os que arriscaram a sua vida para salvar a dos outros: os profissionais de saúde e os funcionários dos lares, principalmente. Pena é que o reconhecimento que a sociedade presta aos que cuidam dos outros seja tão efémero e passageiro. Mas houve quem tivesse ido mais longe: o Padre Giuseppe Berardelli, sacerdote de Casnigo, na Lombardia (Itália) cedeu o ventilador que a sua paróquia lhe ofereceu a alguém mais novo do que ele e, por isso, com mais probabilidade de sobreviver. Por outro lado, foram incontáveis os gestos de solidariedade que possibilitaram não se fragilizar ainda mais o tecido social, ameaçado pela retração de diversos setores da economia, gerando uma crise económica de alcance desconhecido e com consequências imprevisíveis. Para além disso, foram muitos os que partilharam bens de primeira necessidade e se disponibilizaram para fazer as compras daqueles cujo grau de risco sugeria que ficassem em casa.

No meio de tudo isto, não se pode esquecer a capacidade criativa de toda uma sociedade que se reinventou para que o vírus não a paralisasse ainda mais. As aulas e as reuniões online, assim como o teletrabalho são apenas dois exemplos, entre muitos outros. O uso quase generalizado dos meios telemáticos para as ligações entre avós e netos, impedidos da presença física e da habitual expressão dos afetos (colo, abraço, beijos...) também não pode ser esquecido. É legítimo que nos sintamos insatisfeitos com os resultados obtidos, mas não é justo esquecer as virtualidades deste tipo de resposta e da prontidão com que ela surgiu.

Para concluir, é de registar que a comunidade científica envidou esforços, à escala global, no sentido de, em tempo record, alcançar a vacina, coisa que, noutros tempos e em circunstâncias idênticas, requeria uma boa dezena de anos. Ainda não sabemos os seus efeitos, nem em que medida pode ajudar à solução, mas a sua existência é já um sinal de esperança.

Com as lições de 2020, creio que estamos mais fortes para os desafios de 2021. Talvez não seja um ano mais fácil, mas será visto com os olhos de quem, estando ainda a passar pela tempestade, sabe que a bonança se percebe já no horizonte.

*Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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4 janeiro 2021