Sim ou não? Temos escutado opiniões dos dois lados que se equivalem se delas fizermos uma contagem. Há quem diga que todo o feérico das iluminações é um ultraje, senão mesmo uma ofensa a quem, por causa da pandemia, perdeu amigos, familiares ou simples conhecidos. Ao invés, outros há que afirmam que se o Natal fosse escuro, isto é, sem iluminações, mais escura se tornava a pandemia e juntava-se a tristeza da moléstia à tristeza da alma; e estes reforçam a ideia de que as tristezas não acabam por causa das luzes e ornamentações. Acrescentam que à escuridão da alma se deve juntar a claridade de uma esperança. É evidente que não tomaremos partido porque não seriamos isentos: tenho a felicidade de não ter nenhuma morte dos meus com a pandemia; e este estado de graça tornar-me-ia parcelar. Mas compreendo quem se sinta ultrajado ou mesmo traído na sua dor; só que a dor é pessoal e por isso tem de ser mitigada individualmente, cada um fazendo o luto à sua maneira. Não temos direito à dor coletiva porque ela é única e irrepetível como o ser humano. Podemos partilhar a alegria ou a amizade, a ira ou a vingança, mas nunca conseguiremos dividir a nossa dor, porque ela é diferente em intensidade de indivíduo para indivíduo. A palavra sofrimento começa pela sílaba so, e isso diz tudo. Não são as luzes do Natal que agravarão os sentimentos de dor, antes os podem amenizar como um analgésico que alivia a dor, embora não a cure. É um lenitivo temporário mas nunca um agravativo. A imagem daquele doente de covid a tocar violino no hospital onde estava internado, espelha bem como este homem percebeu que a sua dor era só sua e os outros nada tinham a ver com o seu estado de saúde. Na claridade das iluminações do Natal encontramos uma certa semelhança com este doente. Embora dorido, não sei com que esperança de vida, quis alegrar os outros. Altruísmo heroico que escapa a medalhas ou comendas. Isto sou eu a imaginar e, atrevidamente, a querer pensar pelos outros, mas a verdade é que experimento alguma compreensão quando debaixo duma dor intensa, encontro alguém que ri, porque me faz compreender que os outros nunca sofrerão comigo e que não tenho o direito de os sujeitar aos meus desgostos. Há quem diga que os gastos das iluminações eram melhor empregues em dar aos pobres um bodo maior; a quadra do nascimento do Menino Deus é a época dos presentes. Os Reis Magos assim nos ensinaram. Não se mata a fome com uma fatia maior uma vez por ano, antes se corre o risco de saciar consciências; para alguns este sentimento de conforto de alma é fogo de artifício que mal estoira logo de apaga e a dor da pobreza continua. Não chega dar uma vez a quem precisa todas as vezes. Ao menos pelo Natal há ceia para os pobres! Os dinheiros da iluminação chegavam para mais umas malgas de caldo e um naco maior de pão a cada pobre, pelo Natal? Talvez chegasse, mas não resolvia de raiz o problema da pobreza. Esta tende a ser estrutural porque se acomoda nas consciências das dádivas avulsas Depois estou convencido que aquilo que alegra os olhos, se não alegra a alma, pelo menos não a entristece. Uma tristeza não se combate com outra tristeza. Uma cidade às escuras é um sítio de tristeza com tendência para o desânimo. Pintar escuro sobre o negro é tornar a tela cada vez mais preta. Vem aí a vacina contra este maldito vírus e esta esperança- certeza merece ser recebida com a alegria que proporcionam as luzes do Natal.
Destaque
Os dinheiros da iluminação chegavam para mais umas malgas de caldo e um naco maior de pão a cada pobre, pelo Natal? Talvez chegasse, mas não resolvia de raiz o problema da pobreza.
Autor: Paulo Fafe