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AS CONSEQUÊNCIAS DAS CAUSAS

1 – O Dr. José Miguel Júdice tem um curioso (e polémico) programa semanal na SIC chamado «Causas e Consequências», cujo mote geral é que «quem não conhece as causas nunca perceberá as consequências». Este é um axioma que, pela sua linearidade, pode parecer tocar a raia do simplismo ou mesmo partilhar do pensamento de Monsieur de La Palisse. Nada mais errado. Todos os dias, dos mais eminentes politólogos (uma classe e uma competência auto-proclamadas), passando por comentadores e analistas até aos simples «pivots» de televisão, todos se entretêm a dissecar em vão consequências de causas que, deliberadamente ou não, completamente ignoram. Daí o acerto, a oportunidade e a necessidade do lema daquele programa. 2 – Facto um: na recente tomada de posse do Presidente da República, o Presidente da Assembleia, ao saudar os convidados, dirigiu-se especificamente ao «antigo Presidente da República, General Ramalho Eanes» e sua Mulher Drª Manuela Eanes. Ao lado, estava outro antigo Presidente – o Prof. Cavaco Silva – que não mereceu qualquer saudação específica. Estavam presentes dois ex Presidentes – e estavam oficialmente convidados nessa qualidade e não a título particular. Ora, numa cerimónia institucional, saudar especificamente um e ignorar o outro é uma ofensa deliberada, e também ela institucional, a esse outro. O Prof. Cavaco Silva foi pública, oficial e institucionalmente desconsiderado e ofendido pela segunda figura do Estado na solene cerimónia da posse do Presidente da República. Este foi (e ainda é) um facto que imediatamente caiu no silêncio. Nas notícias e nas análises. Não mereceu o interesse (e muito menos o repúdio) de ninguém. Nem mesmos dos analistas que tudo analisam. 3 – Facto dois: no fim da cerimónia, o Prof. Cavaco Silva saiu sem apresentar os protocolares cumprimentos ao Presidente recém empossado – o que causou espanto e um enorme alarido a contrastar com o silêncio sobre o facto anterior. Toda a comunicação social noticiou a anomalia, uma e muitas vezes. 4 – É muito curioso este maquiavélico procedimento de focar intensamente um facto e deixar na escuridão outro ocorrido com a mesma pessoa e na mesma cerimónia. Que forças poderosas (e ocultas) manobram estes jogos de luzes e sombras? Afinal não se percebem as consequências porque não se conhecem as causas ou porque, deliberada e cobardemente, as causas vão, de castigo, para o quarto escuro? Por ordem de que tirania? 5 – Este caso em si mesmo, por muito lamentável e vergonhoso que seja, não tem uma importância nacional. Nem mereceria uma crónica. O que é importante é o que ele revela – esse poder oculto que manobra a sombra e a luz que paira sobre nós todos. Nota: por decisão do autor, este texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.
Autor: M. Moura Pacheco
DM

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13 março 2021