Sou, por natureza e condição etária, um convicto e resiliente pedestrianista; e esta minha natural mania, se assim lhe posso chamar, para além dos ganhos em termos médico-sanitários que me faculta, permite-me curtir espaço e paisagens vários e, obviamente, auscultar o pulsar da nossa cidade no que aos aspetos físicos, económicos, demográficos, culturais e humanos concerne.
Pois bem, nestas minhas frequentes deambulações tenho conseguido medir o pulso às constantes transformações que a nossa cidade – bimilenar, augusta, barroca e dos Arcebispos – tem sofrido ao longo dos tempos, deixando a sua idiossincrasia bisbilhoteira, provinciana, caseira e maneirinha e assumindo a sua condição de urbe moderna, inclusiva, fidalga e cultural; só que, nem sempre estas mudanças, quando precipitadas, mal programadas e deficientemente executadas resultam na sua plenitude em prol do beneficio coletivo.
Vejamos, por exemplo, uma das transformações que mudou a utilização e gozo dos espaços do centro da cidade – a criação de uma ampla zona pedonal; e esta foi, sem dúvida, uma forma moderna e saudável de fruição desses espaços centrais pelos bracarenses e por quem os visita e visita a cidade.
Ora, a criação desta zona pedonal originou o afastamento do automóvel e de outros meios de congestionamento e de poluição do casco urbano e, assim permitindo o usufruto por todos nós de espaços e paisagens mais amplos, livres e organizados; ainda bem me lembro do trânsito automóvel e afins nas ruas do Souto, Capelistas, S. Vicente, Francisco Sanches, Eça de Queirós, S. Marcos, nas Praças da República (Arcada) e do Campo da Vinha, nas avenidas da Liberdade até ao edifício do antigo Correio e Central (parte Sul) e no Largo de Santa Bárbara.
Pois bem, como não há bela sem senão, a zona pedonal não podia ser exclusivamente para uso das pessoas, pois o comércio e demais serviços públicos existentes nessa vasta área têm de ser assistidos e reabastecidos; vai daí, os serviços de cargas e descargas e outros emergentes têm de ser feitos, doa a quem doer, embora preferencialmente em horas noturnas e com o menos prejuízo para a vida da comunidade.
Depois, a realização de eventos vários ao longo do ano na zona pedonal sempre envolve a deslocação de pesados equipamentos transportados em longos e pesados veículos (estou a lembrar-me da Braga Romana, das festas de S. João, de frequentes transmissões televisivas, de paradas militares, etc.); e, assim, impossível se torna garantir o uso da zona pedonal só por peões, daqui resultando constrangimentos diversos e preocupação acrescida com a segurança e o conforto dos utentes, a que acresce a indisciplinada utilização cada vez mais abusiva da bicicleta e da trotineta.
Agora, para além desta incómoda e excêntrica realidade, outra e não menos desagradável é ver a degradação do piso da maioria desta área pedonal, mormente onde abunda o lajedo; e esta degradação, fruto dos pesados veículos que nela circulam em serviços públicos, está no seu revestimento desapropriado que resulta quebrado, aos altos e baixos e esburacado.
Óbvio que as lajes, placas ou mosaicos que revestem os passeios não são resistentes capazes para o uso a que se destinam e a que estão sujeitos; daí o mau aspeto que apresentam e, consequentemente, o perigo que representam para os peões que os utilizam e isto para já não falarmos no prejuízo que é para o erário público (para todos nós) o seu necessário e constante conserto ou substituição.
Penso que a Câmara Municipal tem de começar a substituir o tipo de revestimento desta área, senão não ganhamos para os remendos que são executados a toda a hora, fazendo lembrar os tempos do antigamente onde os buracos eram recauchutados assiduamente, mas sem a duração desejada e dando das estradas e passeios a imagem de calças chapeadas e com remendos em cima de remendos; e, por exemplo, a substituição que foi executada, há tempos junto ao Banco de Portugal e que aplaudo vivamente, onde era constante a degradação ao piso que servia de passadeira, pode ser uma saudável inspiração para a execução de outras zonas pedonais por onde circulem veículos de grandes dimensões e peso.
Esperemos para ver e aplaudir, se for o caso, tal operação de que resulte uma menor, constante e dispendiosa intervenção na zona pedonal e a que deve acrescer uma maior e eficiente fiscalização da sua utilização no que ao horário de cargas e descargas diz respeito; e já que estamos com a mão na massa, venha igualmente legislação que, aqui, regule o uso da bicicleta e da trotineta.
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado