Quando em épocas recuadas de Braga se dizia ser um atraso de vida, o tempo não corria, escorria; e as pessoas viviam em ritmo lento, com maior segurança e qualidade de vida; vai daí, o estresse não passava de uma maleita que não vinha nos dicionários, porque, pura e simplesmente, inexistente.
Era, pois, um tempo em que moradores havia nos extremos da cidade (Maximinos, S. Vítor, S. Vicente ou S. João da Ponte) que aos Domingos diziam: Bem, vamos à cidade ver as montras ou merendar; ora ir à cidade era chegar à Arcada, à Sé, ao jardim de Santa Bárbara ou ao Campo da Vinha; e para quem possuía automóvel – um verdadeiro luxo – podia abastecer o seu veículo na bomba existente frente à Arcada ou aí estacionar à vontade e ainda tomar um cafezinho, dando duas de treta no Viana, no Astória ou no Avenida.
Depois, o transporte público que servia a cidade era o elétrico que ia do S. João da Ponte ao Monde d'Árcos e da Estação do Caminho-de-Ferro ao Bom Jesus; e, assim, os bracarenses, nas suas deslocações de lazer ou de pouca ou nenhuma urgência, usufruíam pacífica e abundantemente de paisagens amplas e verdes que bordejavam a cidade, caseira, provinciana, bacoca e ordeira.
E porque não existiam parcómetros nem semáforos e muito menos parques de estacionamento subterrâneos, quem regulava o trânsito eram polícias sinaleiros, garbosos e espalhafatosos nas suas manobras de orientação rodoviária; e para os sortudos automobilizados era um luxo apetecido e bem gozado, porque fácil e à borla, o estacionamento, à grande e à francesa, no coração da cidade.
Passagens aéreas, túneis rodoviários e muito menos zonas pedonais eram uma miragem que nem o tal canudo de ver Braga as topava; e, assim, o trânsito que afluía à cidade ou dela desafluía fazia-se pelas ruas centrais sem constrangimento de qualquer jaez, basta pensarmos que a central de camionagem funcionava no espaço onde existe o Centro Comercial Santa Cruz, junto ao antigo cinema S. Geraldo.
Pois bem, estes foram tempos monumentais de uma autêntica paz social e de espírito para os bracarenses; e só o progresso e o cosmopolitismo acelerados consigo arrastando coisas muito boas, mas igualmente coisas muito más, mormente a nível rodoviário onde pontificam constrangimentos vários, quer nas entradas, quer nas saídas da urbe e, sobretudo nos estacionamentos junto às habitações, pôs termo a este caseirismo, maneirismo e provincianismo.
Mas, já que falamos de problemas rodoviários é o momento certo e óbvio para aqui chamarmos um incumprimento legislativo que urge debelar; e que bem revela o gosto inato que certos portugueses nutrem por transgredir a lei e, deste jeito, pôr em perigo a sua como a vida alheia.
E é o seguinte:
A Avenida Cidade do Porto uma das mais flageladas por intenso trânsito devido às atividades industriais e comerciais nela existentes tem toda a sua faixa de rodagem, direita e esquerda, limitada por uma dupla linha longitudinal contínua; ora, pelo artig.º 146.º – alínea o) do Código da Estrada a transposição ou inversão de sentido de marcha desta linha é punida com uma contraordenação muito grave.
Ora, utilizador diário que sou desta via, tenho observado permanente desrespeito por este artigo do Código da Estrada por condutores que pisam, transpõem ou, até, mais grave ainda, invertem o sentido de marcha só para não andarem uma vintena de metros; e esta atitude de muitos condutores não passa de um comportamento irresponsável, comodista e facilitador, pois, como já disse, existem duas rotundas – uma junto à antiga Grundig e outra junto ao apeadeiro dos Comboios em frente à Junta de Freguesia de Ferreiros – onde a inversão do sentido de marcha pode ser efetuada com segurança e respeitando a lei.
Por isso, uma apertada fiscalização presencial das competentes autoridades ou a colocação de radares nesta via de trânsito seria uma forma de desmotivar o desrespeito pelo Código da Estrada e garantir a segurança de quem circula por esta via responsavelmente; ademais, gostando tanto o governo de ir ao bolso dos cidadãos por tudo e por nada, tem, aqui, uma boa, fácil e garantida fonte de rendimento.
Entretanto, o caso para praguejar:
– Porra, vai cá uma nortada!
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado