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Apanhados 23

Como defensor e praticante do pedestrianismo, embora já com algumas naturais limitações físicas dada a minha proveta idade, consumo muitos quilómetros de asfalto, paralelepípedos e basalto em habituais deambulações por por ruas, calçadas e becos da nossa cidade; e é assim que vou apalpando o viver da nossa gente e o ritmo da nossa augusta cidade conforme os quiproquós do seu quotidiano, quantas vezes atribulado, surpreendente e insano.

E, embora sendo a nossa barroca cidade privilegiada de avantajados espaços pedonais, nem sempre se pode deles usufruir com tranquilidade, segurança e vantagem; e isto porque, seja por veículos de cargas, descargas e outros ofícios, seja por bicicletas e trotinetas, em amplas correrias, as zonas pedonais, sobretudo as mais frequentadas e atrativas, palco são de insegurança e, obviamente, de desassossegos vários.

Ora, considerando que as bicicletas e trotinetas nem sempre são utilizadas por condutores responsáveis, e respeitadores das regras de cidadania e de saudável convivência, frequentemente os peões apanham sustos de caixão à cova; e esta conflitualidade resultado é, quase sempre, do mau uso que certa juventude faz de tais equipamentos, exibindo-se em fintas, cavalinhos e permanentes tangentes e travagens bem rentinho de quem flana sossegadamente e a butes em tais locais para essas deambulações designados.

Então, estes pedestriantes não ganham, quantas vezes, para o susto e o azar de ter de parar no hospital com uma tíbia fraturada, pois de nada lhes vale protestar, porque estes pseudoecologistas e vanguardistas de causas próprias marimbam-se para as regras de bom uso dos espaços comuns; e, sobretudo, ignoram que a sua liberdade acaba quando colide com a liberdade dos outros, quando, como no presente caso, que é a utilização de um espaço público que está prioritariamente destinado aos peões.

Agora, quando a Câmara Municipal decide, como medida ecológica correta e aplaudível desenhar em várias ruas da cidade zonas para uso comum de bicicletas e não sei se para trotinetas pensava-se que encontrada estava a solução para o uso correto e acertado desses veículos; só que para se ver um ciclista ou trotinista que seja a utilizar tais zonas limitadas seria preciso recorrer ao telescópio de ver Braga pelo tal canudo o que, obviamente, quer dizer que a decisão acertada e oportuna da Câmara Municipal está infelizmente a cair em saco roto.

E, deste jeito, cada vez mais longe estamos de conseguirmos reduzir o trânsito automóvel no centro da cidade e, assim, conseguirmos um ar menos poluído e agressivo para os nossos pulmões e, consequentemente, uma vida mais saudável como convém; é que se nos dermos ao exercício fácil de pensarmos como vai o ar que se respira diariamente nas ruas, praças, becos e avenidas da cidade ataremos as mãos na cabeça de desânimo e pessimismo quanto à sua nefasta atuação nos nossos tubos pulmonares.

Pois bem, perante o abortado desiderato, para a maioria dos bracarenses responsáveis e bem pensantes, sabendo que estes meios de transporte (bicicletas e trotinetas) não poluem, são amigos do ambiente, substituem, em certas circunstâncias, os automóveis e demais veículos motorizados poluidores, etc. etc. etc uma coisa e evidente: o seu uso tem de ser disciplinado urgentemente o que pode fazer-se com facilidade recorrendo à Polícia Municipal; e, numa primeira abordagem, começando por ações de sensibilização, informação e fiscalização, quer presencialmente, quer com o recurso às imagens em placardes e em programas nos media e nas redes sociais e, só depois passar à penalização a sério e a doer.

Até para que as zonas pedonais se tornem aprazíveis, seguras e plenamente frequentadas e a nossa bimilenar cidade dos Arcebispos prossiga a sua enérgica caminhada de um dos melhores e mais apetecidos destinos europeus, senão do mundo; e esta é, sem dúvida, a aspiração dos verdadeiros e concretos bracarenses que gostam de se ver ao espelho de uma urbe culta, inclusiva, educadora e cosmopolita.

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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2 fevereiro 2022