A meu ver, a eleição de Braga como melhor destino europeu 2021 (European Best Destination 2021) veio na altura errada e seria de todo razoável que se tivesse suspendido a iniciativa atempadamente; e isto porque a pandemia que assola o mundo em nada vai favorecer o projeto, o que pode virar o feitiço contra o feiticeiro e como 2021 já vai de vento em popa os turistas cá não cheguem.
Todavia, mesmo parecendo um presente envenenado, há que aproveitar ao máximo a oportunidade para, por todos os meios, possíveis e impossíveis, ao nosso alcance, levar as nossas riquezas paisagísticas, culturais e humanas aos quatro cantos do mundo; e, deste modo, não se perde tudo e lançam-se as redes para a futura pescaria, mantendo-se, assim, viva a chama da curiosidade e paixão turística.
A esta iniciativa chama-se semear para mais tarde colher ou seja quando a pandemia for vencida e, de novo, se abrirem janelas e portas ao ecumenismo entre povos e nações; porque se usufruímos de uma invejável oferta turística de pouco ou nada ela nos serve se ficar desconhecida ou confinada, como agora se diz e pratica, aos quatro muros do património, da paisagem, da gastronomia, da ecologia e da nossa idiossincrasia de bracarenses, e porque não minhotos, hospitaleiros e simpáticos.
Como capital do Minho, Braga deve, apoiada nos diferentes autarcas da região, ser catalisadora de interesses, meios e vontades com vista à promoção dos inúmeros encantos e recantos espalhados pelos diferentes concelhos; e esta dinâmica acrescentará mais riqueza e valor ao património cultural, material e imaterial, à gastronomia, à doçaria, à diversidade e riqueza paisagística, à fama hospitaleira e generosa das populações e à dinâmica e variada oferta de alojamento, amplamente reconhecida e inquestionável da nossa cidade.
Pois bem, há, todavia, na nossa cidade muitas arestas a limar que nos passam, por vezes, ao lado da nossa lufa-lufa diária e que, ao não ser limadas, de nós podem dar uma imagem desfocada e errada de cidadãos escorreitos e cumpridores que devemos sempre ser; e só a título de exemplo, vou lembrar duas ou três dessas fragilidades e fraquezas que sujam o tecido urbano ainda a tempo de serem remediadas.
Por exemplo certos jardins e espaços verdes da cidade não são o melhor cartão de visitas para um turismo de primeira água como o que nos é exigido por esta eleição, pois merecem mais arranjo floral, melhor limpeza e outro dinamismo; sobretudo, que a sua utilização não seja frequentemente feita por muitos caninos que ali vão aliviar-se de urgências intestinais, pois este abuso e desrespeito só é possível pela falta de fiscalização e punição severas, exercidas aos donos dos animais.
Ainda, estando em fase avançada o uso da bicicleta como meio de transporte e de lazer na cidade, é necessária e urgente a definição de corredores e zonas próprios, ou seja tomar a cidade ciclável o que não será fácil, mormente no casco urbano; é que presentemente acontece a utilização indisciplinada e indiscriminada de ruas e passeios sem o menor respeito e atenção pelos peões que, assim, correm sérios riscos de graves acidentes; também aqui a fiscalização e penalização são medidas urgentes e necessárias.
Finalmente a limpeza das ruas, já muito melhorada e quase perfeita ainda sofre os efeitos de comportamentos menos corretos e civilizados de muitos cidadãos, mormente no que concerte ao lançamento para o chão de papéis, pontas de cigarros, chicletes e abundante escarraria; e a isto há que juntar uma falta visível de recipientes suficientes e apropriados para a recolha deste lixos e, senão mais importante, uma fiscalização e sensibilização permanente aos infratores.
Estas podem bem parecer achegas consideradas menores e pouco consentâneas com o ambicioso processo turístico que nos caiu em mãos; mas, muitas vezes é nas coisas mais simples e comezinhas que reside a grandeza hospitaleira e cívica das pessoas que recebem e bem tratam quem as visita.
Que a pandemia nos deixe em boa hora para que possamos abrir os braços à entrega de quem nos procura.
Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
Apanhados 17
DM
3 março 2021