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Ano Novo, melhor ano

No dealbar de um Ano Novo, que balanço fazer do Ano Velho?

Ora, dois mil e dezassete foi um ano trágico, para esquecer, pelas catástrofes dos incêndios e da seca com que nos brindou: catástrofe dos incêndios que causou, no país humano, muitas dezenas de mortes e no país ambiental, milhares de hectares de floresta ardida e perdida e, catástrofe da seca que levou à agricultura, já de si tão débil, avultados prejuízos.

Por isso, enterremos dois mil e dezassete com o despeito que ele nos merece, fazendo um velório a sério com banda de música, foguetório, arraial quanto baste; porque, em boa verdade, não passou de um ano negro, nigérrimo para a vida nacional e, como tal, com lugar garantido no caixote do lixo da história.

Ora, muito do que aconteceu podia ser evitado se houvesse a necessária prevenção; mas, nada do que é essencial se tem feito ao longo dos anos, porque a maior parte dos políticos e governantes teima em olhar mais para o próprio umbigo do que para a barriga da nação;

e, então, o governo da geringonça apostado está mais em campanhas de rua, prometendo muito e cumprindo pouco, do que em apaixonar-se a sério, procriando as necessárias medidas de fundo na Saúde, Educação, Segurança Social e Justiça.

E, então, o povo lá segue embalado e adormecido pelas falinhas mansas e carinhas larocas de anjinhos papudos que são certos governantes que a fazer política são uns ases, mas a planear, regular, corrigir, fiscalizar e penalizar, enfim, não passam de uns refinados possidónios;

e isto se vê claramente visto nos fenómenos de anemia social que por aí campeia do o te rales, do não te chateies, do deixa andar, que eles agradecem efusivamente e típico é da nossa forma de ser e estar, tanto na vida, como na democracia.

Depois, toleramos tudo, conformamo-nos com tudo e ficamos cómodos e passíveis perante a violação e sonegação, até, dos nossos valores e direitos fundamentais, particulares e coletivos; e isto conduz, inevitalmente, a um vazio ético profundo, a um confrangedor relativismo moral, enfim, a uma ausência plena de honestidade intelectual, firmeza de caráter e independência de juízo.

Assim, o governante no ministério, o autarca na autarquia, o fiscal na repartição, o médico no hospital, o professor na escola, o polícia na rua... o cidadão, em geral, e em qualquer lugar da vida nacional, todos vão convivendo com este estado de espírito coletivo e, como tal, consentindo no avanço do nacional-porreirismo e laxismo que corroem por dentro, quer os homens, quer as instituições.

Ora, este estado de bananismo coletivo é o principal inimigo do progresso, da inovação, da discussão, da intervenção e da participação na vida democrática, obstando à criação e ação de movimentos cívicos, capazes de impedir a cultura da indiferença e o desfazer da apatia social;

por isso, protestar, afrontar, exigir e indignar são atitudes cívicas legítimas que, quando exercidas, revelam a maturidade e vitalidade do corpo social, o que infelizmente não têm sido apanágio da nossa vivência quotidiana;

e, obviamente, cada vez mais sujeitos estamos à probabilidade de se extinguirem, absorvidas pelos fenómenos constantes da demagogia e do populismo.

Assim sendo, que o Ano Velho se vá, se pire, se evapore sem um lamento, uma súplica, uma lágrima sequer, já que saudades não deixa;

e que o Novo Ano seja efetivamente um Ano Novo que nos chegue com a esperança, propósito e resiliência de ser o tempo e o modo de darmos a volta às coisas, lutando pela melhoria das nossas condições de vida;

e, para tal, obrigando o governo a deixar-se de demagogias, meias-verdades e falsas promessas, bem como de medidas fraturantes que, apenas, interessam a certos grupúsculos que só estão na vida política para afrontar, destruir e abalar os alicerces fundamentais da vida nacional.

Mas, esta volta que é urgente e necessária dar às coisas somente acontece se o povo começar a pensar mais pela sua própria cabeça e a indignar-se sempre que os poderes instituídos lhe neguem ou violem os seus direitos, liberdades e valores fundamentais como tantas vezes tem acontecido.

Só assim podemos pensar num Ano Novo, verdadeiramente Novo e melhor para todos; sendo assim, vamos a isso.

Bom ano.


Autor: Dinis Salgado
DM

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30 dezembro 2017