No dia dois de Outubro, celebra a Igreja os Santos Anjos da Guarda. Neste ano, por calhar a um domingo, dia do Senhor por excelência, só é lembrada esta festividade litúrgica em algumas instituições da Igreja que têm com eles uma especial afinidade.
Costuma dizer-se: a bondade de Deus não conhece limites. O facto de ser capaz de perdoar as nossas faltas até setenta vezes sete, como observou Jesus a S. Pedro, que, com alguma cautela Lhe perguntava se o nosso perdão a quem nos ofende pode chegar até sete vezes, revela o amor que nos devota. Efectivamente, basta que uma pessoa me maltrate uma vez para eu ficar, de alguma forma, um pouco de pé atrás (assim costuma dizer-se) para com ela. E se volta a ter uma mesma atitude para comigo, mais custosa se torna a minha relação.
Tanta capacidade de perdoar revela, por um lado, que Deus conhece como ninguém as nossas fragilidades. Apesar de tudo, não deixa de nos amar. Sabe que somos débeis na vontade para fazer o que devemos, faltando com frequência às nossas obrigações. Não, porventura, de uma forma tão chamativa que requeira a intervenção dos tribunais humanos para nos julgar e, eventualmente, nos destinar uma pena dolorosa. No entanto, como diz o povo, “o justo peca sete vezes por dia”. Ou seja, ninguém é cem por cento exemplar. Falha sempre com assiduidade, o que não significa que deva desistir de lutar com constância, a fim de que a sua conduta não se transforme, por intermédio de uma bem instalada tibieza, num percurso morno e desleixado, onde carece a força de vontade para cumprirmos o que é claramente nosso dever.
Temos a grande ventura de Deus ser extremamente generoso e usar uma bitola de perdão inexcedível. Mas se nos desculpa, não é para que vivamos com leviandade a nossa vida, pensando: “Já que Deus é tão bom, farei o que me interessa e depois Ele perdoar-me-á como sempre”.
O amor que Deus nos devota requer da parte do homem o exercício, apoiado na sua graça, por uma busca veemente do que é devido. E o que é devido para nós não supera as nossas capacidades de o poder realizar. Como observa S. Paulo, “ninguém é tentado acima das suas próprias forças” (1 Cor. 10, 13). Deus não perdoa para sermos desleixados, egoístas e injustos, orientando a nossa vida por um caminho em que só interesse o nosso bem estar temporal e social. O seu perdão tem em conta as nossas dificuldades e fraquezas, que nos devem conduzir a um exame de consciência sobre a qualidade do nosso comportamento e a saber pedir perdão, com arrependimento, por tudo o que não foi senão fraqueza e má vontade, ou se quisermos, emprego das nossas faculdades seguindo a lei do mais fácil e agradável, independentemente das obrigações.
E se o amor divino se manifesta, como se referiu, na sua capacidade de nos desculpar, em muitos outros aspectos ele é visível com evidência. No início destas linhas falávamos do dia dos Santos Anjos da Guarda. Pois bem: ele reflecte, doutra maneira, como é objectiva e real a sua capacidade de nos amar e de nos incitar, com respeito pela nossa liberdade, a seguirmos o bom caminho até atingirmos o fim para que fomos criados: a felicidade eterna.
Temos cada um de nós um anjo que nos guarda e nos incita a procedermos de acordo com aquilo que Deus nos vai solicitando ao longo da nossa vida. Uma criatura angélica é muito mais inteligente e possante do que nós. Vive na presença de Deus e procura por todos os meios saudáveis orientar-nos para não esquecermos a vontade do Criador em todas as circunstâncias da nossa existência.
Como criatura, tal como Nossa Senhora, não tem capacidade para desventrar a nossa intimidade. Nela, apenas eu - com as limitações próprias que me caracterizam e tantas vezes tintadas com as minhas fragilidades: egoísmo, soberba, sensualidade, etc. - e Deus, que é omnisciente e perfeito no seu conhecimento, conseguem penetrar. Não se quer dizer com isto que o anjo da guarda de cada um dos homens, com a sua capacidade cognitiva muito superior à nossa, ignore por completo a nossa interioridade. Mas não está nas suas funções obrigar-nos de forma irresistível - somos seres livres, criados à imagem e semelhança de Deus (Gén I, 26) -, a praticar o que ele, com delicadeza, nos vai sugerindo. É alguém muito amigo, posto por vontade sobrenatural e divina como nosso ajudante a seguir o caminho que nos fará chegar ao Céu, quando Deus nos chamar.
Não é justo nem razoável que tratemos o nosso anjo da guarda como uma espécie de objecto de estimação, colocado a um recanto da vida como algo de profundamente relevante, mas com o qual não dialogamos. Pelo contrário, recorramos à sua amizade por nós, abrindo-lhe bem a alma e, sempre, contemos com o seu auxílio para que a nossa conduta seja a de um verdadeiro filho de Deus.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva