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Amicus Plato, sed…

1."Amicus Plato sed magis amica veritas". Acima da amizade com Platão está o amor à verdade. A frase é de Aristóteles na sua «Ética a Nicómaco», aludindo ao mestre e amigo Platão, cuja Teoria das Ideias não perfilhava. A amizade com as pessoas não significa que delas se não possa discordar. Há situações em que a justiça ordena que se diga: sou muito teu amigo, mas a verdade acima de tudo. Quando há que optar entre a amizade com a pessoa e o culto à verdade, este deve prevalecer. 2. Lembrei-me da citada frase de Aristóteles ao ver a dificuldade que certas pessoas tiveram em condenar, sem ambiguidades, a invasão da Ucrânia. Quanto a mim está a ser um crime, e um crime horrendo. São condenáveis as atrocidades cometidas. Não é legítimo usar quaisquer meios para atingir os objetivos. Mas os compromissos, as dependências, os interesses, os medos… 3. Há entre nós quem viva obcecado pela ideologia marxista. Em sua opinião é no Marxismo que está a luz. Tentam impô-lo como único caminho. E há quem – por convicção, por seguidismo, por medo de não ser considerado moderno – vá por aí. Esta fidelidade à ideologia, pelos motivos apontados ou por outros, gera o fanatismo. A cegueira. Por fidelidade à ideologia tem-se feito uma leitura deturpada da História. Destruíram-se monumentos. Queimaram-se livros. Impõe-se ditatorialmente um pensamento único. Defendem-se (em minha opinião, claro!) autênticos disparates. Recuso chamar progenitores aos meus pais. 4. O muito respeito que quero ter para com os outros não me impede de sugerir a certas pessoas que parem para refletir. Para se aperceberem de injustiças cometidas por fidelidade à ideologia. Para se abrirem a diversas correntes de opinião. Para tomarem consciência de que ninguém é dono da verdade total. Para diversificarem as leituras. Para saberem discernir e ver de que lado está a razão. 5. Posso estar enganado mas estou persuadido da necessidade de haver a coragem de rever a forma como, em alguns meios, se tem andado a fazer e a ensinar História. Historiar o que as pessoas foram e fizeram não é fixar-se, apenas, no que na vida das mesmas houve de negativo ou de menos bom. O amor à verdade exige que se veja o reverso da medalha, reconhecendo o bom que as pessoas fizeram. 6. O acolhimento temporário de refugiados vindos da Ucrânia no Hotel João Paulo II fez-me pensar, por exemplo, na forma como, em alguns meios, se aprecia o que foi o episcopado de D. Francisco Maria da Silva. Tinha o seu feitio, é verdade. Tinha o seu temperamento, é verdade. Tinha os seus repentes, é verdade. Mas a Arquidiocese e Portugal devem-lhe muito. Não há como ler o que Paulo Abreu escreve no Tomo V dos «Fastos Episcopaes da Igreja Primacial de Braga». O que hoje é o Hotel João Paulo II, para falar só neste empreendimento, deve-se à iniciativa de D. Francisco, que no Sameiro promoveu a criação do Centro Apostólico Mater Ecclesiae, inaugurado entre os dias 29 e 31 de agosto de 1969. O edifício deixou de corresponder à ideia inicial. Mas a verdade é que ali está e pode ser usado com muito proveito, como prova o acolhimento aos refugiados. 7. Tenho a consciência de haver quem discorde de mim. Discordar, com fundamento, é muito legítimo e pode ser um dever. Não deixo, no entanto, de sublinhar que o amor à verdade e o respeito pela verdade exigem que, na biografia que se traça das pessoas, se não selecionem os factos de harmonia com os interesses, as conveniências ou os gostos de quem das mesmas pessoas fala ou escreve. Fazer retratos é muito diferente de desenhar caricaturas.
Autor: Silva Araújo
DM

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24 março 2022