Sem pretender fazer uma análise detalhada e aprofundada da realidade, parece não ser descabido afirmar que os últimos anos viram crescer exponencialmente um modelo humano e social, onde cada um procura bastar-se a si mesmo, vivendo numa espécie de condomínio fechado e em gestão privada.
O conforto que a ciência e a técnica proporcionam leva a que muitos troquem as praças, as associações e os espaços de convívio pelo conforto do seu sofá. E assim se reduz o leque das relações, se afunila a forma de pensar e se faz vista grossa aos muitos problemas e dificuldades por que passam os outros. Gera-se até a ideia de que todos estão bem, quando, na verdade, são muitos os que passam mal.
Não sou generalista nem pessimista, a ponto de afirmar que todos vivem assim, até porque sei que são muitos os que vivem em comunidade e lutam pelo bem-estar físico, psicológico e espiritual dos demais. Mas, em nome da verdade, não posso deixar de constatar que existe hoje uma certa tendência para incorrer nesse erro.
“Alarga o espaço da tua tenda, estende sem medo as lonas que te abrigam e estica as tuas cordas, fixa bem as tuas estacas” (Is 54, 2). Isaías está a falar da glória da nova Jerusalém, mas penso não ser forçado ler o texto como uma sugestiva imagem profética que evoca a nossa itinerância e a necessidade de abrirmos as fronteiras dos nossos círculos fechados, passando a ver mais longe e a acolher mais (de) perto.
No contexto cultural do Médio Oriente, o nomadismo é frequente e, por isso, a tenda assume ressonâncias que escapam aos povos de outras latitudes (cf. Gn 18, 1-15). A itinerância de Israel, aquando da sua caminhada pelo deserto, no êxodo, e perpetuada na Festa das Tendas, é o pano de fundo onde se inscreve e melhor se compreende o apelo de Isaías. Além de o povo acampar em tendas, era também numa tenda, a do encontro, que estava a arca da aliança, com as tábuas da lei, modo por excelência da presença de Deus entre o povo (Nm 12, 5; 2Sm 7, 6).
Deus, contudo, resolveu mudar a forma de estar entre nós, quando “o Verbo fez-se carne e acampou [é esse o significado literal do verbo grego skênóô] entre nós” (Jo 1, 14). O nosso espanto adensa-se, ao percebermos que a tenda de Deus se identifica com a nossa (a natureza humana) e que tal acontece com o propósito de dilatar o espaço do nosso coração para que nele caibam Deus e os outros.
Dilata-se a nossa tenda quando acolhemos os que reclamam a nossa ajuda, por serem necessitados, ou de nós diferem, por pensarem de outro modo. É um facto que a partilha de bens e a aceitação das diferenças são valores promovidos e vividos neste tempo de Natal, mas também muito esquecidos quando, passada a Epifania, voltamos ao Tempo Comum. A partilha, a aceitação das diferenças e a hospitalidade são hoje valores a defender e promover. Alarga o espaço da tua tenda...
A consciência de que vivemos sob a alçada de Deus que nos sustenta na existência, nos perdoa e protege, é fundamental para a confiança e a serenidade. Trata-se de uma convicção que nós, os crentes, precisamos de interiorizar e promover. Estende sem medo as lonas que te abrigam...
O leque das nossas relações também precisa de alargar, dado ser na comunidade que está o nosso fundamento e estabilidade. Quando conhecemos melhor o próprio e o mundo que nos rodeia, nas suas tendências e dificuldades, alicerçamo-nos a nós próprios e mais facilmente estabilizamos. Estica as tuas cordas, fixa bem as tuas estacas.
Se o nosso olhar precisa de ver mais longe, para além das aparências, a fé alargada e aprofundada que, em tempos difíceis e estranhos, o Natal provoca é imprescindível e incontornável. Numa simples, mas densa frase, o profeta Isaías sugere um excelente propósito para 2021: Alarga o espaço da tua tenda...
Autor: P. João Alberto Correia