No passado dia 8 de Fevereiro, o Público fazia manchete da nota do Cardeal de Lisboa sobre o acesso de católicos recasados aos sacramentos, retirando uma frase do contexto para obter com isso um efeito fácil de escândalo.
Vários sectores cavalgaram a onda entretanto gerada, até que o Senhor Cardeal veio, em entrevista ao Expresso, clarificar alguns pontos da polémica. Tudo isto suscita a este cristão tresmalhado uma reflexão franca e directa, embora não canónica.
O contexto da referida nota é conhecido. O Papa Francisco lançou um debate dentro da Igreja sobre a família, no seguimento do qual produziu um documento sobre a Alegria do Amor, no qual, numa célebre nota de rodapé, abria a possibilidade de católicos recasados terem acesso aos sacramentos.
As orientações genéricas do documento estão a ser traduzidas ao nível local, tendo sido emitidas em Portugal notas pelas Dioceses de Braga, Aveiro e agora pela Diocese de Lisboa. Entretanto, a referida possibilidade de acesso aos sacramentos, aberta pelo Papa Francisco, provocou uma violenta reacção nos sectores mais conservadores da Igreja, que acusam o Papa, nada mais, nada menos, de ser um herege.
Neste contexto, a nota da Diocese de Lisboa sugere que, num processo de discernimento com vista a um possível acesso aos sacramentos, não deixe de ser proposto aos casais recasados a abstinência de vida sexual. Como seria de esperar, esta proposta suscitou reacções precipitadas aos católicos mal informados e a demagogia fácil dos inimigos da Igreja.
Porém, com um pouco de ponderação, ver-se-ia que a proposta não é propriamente notícia: nem ela é a solução oferecida pela Diocese de Lisboa aos católicos recasados, nem ela é uma originalidade; ela consiste no acto formal de citar documentos anteriores da Igreja (inclusive de anteriores Papas), ao mesmo tempo que encerra uma tentativa de não alienar completamente os sectores mais conservadores da Igreja.
Na prática, no caminho de discernimento que os casais recasados fizerem à luz da nota pastoral, a recomendação, obviamente, será muito pouco operativa. Mas o problema aqui não é um problema prático, da vida das pessoas, é um problema teórico e burocrático, na cabeça dos legisladores eclesiásticos: como resolver as contradições entre os desafios colocados pelo mundo, por um lado, e as tradições, as concepções, os dogmas de que eles são guardiães, por outro lado?
Aos olhos dos leigos, pelo menos, essas contradições existem de facto. Se até um homicida (por exemplo) tem direito a aceder à misericórdia, ao perdão e ao recomeço de vida, por que razão haveria um casamento falhado de permanecer como uma pena perpétua? A quem aproveitaria semelhante sacrifício gratuito?
E como aceitar tal visão pessimista do amor humano, a qual não encontra eco nas consciências, nem tem fundamento algum na dimensão terrena onde ele precisamente se move? A este respeito, a entrevista do Senhor Cardeal não é tranquilizadora: a tensão entre a proposta cristã e o mundo é inevitável, mas não é um valor em si mesma.
Enquanto estas contradições não se resolvem, a mensagem que se quer passar sofre no crédito e na autoridade, e isso produz dois efeitos nefastos. O primeiro é o esvaziamento do "centro político" da Igreja e o reforço das posições radicais em ambos os extremos do espectro das sensibilidades eclesiais.
Num extremo cresce o número daqueles cristãos que aspiram tão acriticamente o ar do tempo que perdem a identidade cristã. No outro extremo, ganham força os sectores conservadores, que pretendem construir o condomínio fechado dos supostos eleitos, bem separado por muros altos do resto do mundo. Em ambos os casos, o resultado é o acantonamento num gueto de irrelevância.
O segundo efeito nefasto é um recuo da influência da Igreja nas consciências, particularmente dos jovens, porque é na juventude que se descobre o amor e o sexo, e se abraçam apaixonadamente ideais e valores.
Infelizmente, o espaço deixado livre por esse recuo é imediatamente ocupado por toda a forma de indignidade (basta ligar a televisão ou entrar na internet) e pelo pensamento único das "causas fracturantes".
Esta polémica poderia parecer, à primeira vista, um problema de comunicação entre a hierarquia e os fiéis. Mas a dimensão que a polémica alcançou mostra que a questão extravasa o interior da Igreja e que o mundo está à escuta.
Também por esse motivo é indispensável que a Igreja dirija a todos uma mensagem clara e relevante, que só pode ser a defesa, na vida e no amor, da dignidade humana, fundamentada em razões que são partilháveis por todos os homens e mulheres, e nas razões que vêm da fé cristã.
Autor: José Carlos Espírito Santo
Ainda a nota do Cardeal de Lisboa
DM
22 fevereiro 2018