twitter

A vida exalta-se no dom: gerá-la regenera-nos; gastá-la, enriquece-nos

O título deste texto a propósito do Dia Mundial da Vida por Nascer, celebrado este ano no dia 9, terminada a oitava de Páscoa, é extraído do discurso de 5 de Outubro último, do Papa Francisco aos participantes na Assembleia Geral dos Membros da Pontifícia Academia para a Vida.

O efeito da cultura hodierna em que se idolatra o eu é que o sujeito se olha continuamente ao espelho, acabando por se tornar incapaz de olhar para os outros e para o mundo. E isto tem consequências gravíssimas para todos os afecto e relações da vida ( Lodato Si, n.º 48).

Há um desinibido materialismo que caracteriza a aliança entre a economia e a técnica e que trata a vida como um recurso a explorar ou a deitar fora, em função do poder e do lucro. Todavia, um autêntico progresso científico e tecnológico deveria inspirar políticas mais humanas.

A fé cristã convida-nos a intervir, recusando toda a nostalgia e lamentação, pois o mundo tem necessidade de crentes que, com seriedade e alegria, sejam criativos e propositivos, humildes e corajosos, resolutamente determinados a recompor a fractura entre as gerações. Esta fractura interrompe a transmissão da vida.

A Palavra de Deus incita-nos a traduzir em actos e palavras o amor por toda a vida humana e durante toda a vida. Diz-se no Génesis que cada um de nós é uma criatura querida e amada por Deus, por si mesma. Não é apenas uma junção de células bem organizada e seleccionada no decurso da evolução da vida.

Temos, além disso, uma bênção divina na origem da vida humana e uma promessa de eternidade que são o fundamento da dignidade de toda a vida humana, de todos e para todos. Os homens, as mulheres e as crianças da terra – de que são feitos os povos – são a vida do mundo que Deus ama e quer salvar, sem excluir ninguém.

Esta aliança é selada pela união de amor, pessoal e fecunda, que marca o caminho da transmissão da vida através do matrimónio e da família. A aliança do homem e da mulher é convocada a tomar nas suas mãos a condução de toda a sociedade, responsabilizando-se pelo mundo, nos domínios da cultura, da política, do trabalho, da economia, e também na Igreja.

Homem e mulher estão chamados, não apenas a falar de amor, mas a falarem-se com amor daquilo que devem fazer para que a convivência humana se realize à luz do amor de Deus por toda a criatura. Falarem-se e aliarem-se, porque nenhum dos dois está em condições de assumir, sozinho, uma tal responsabilidade.

A utopia do 'neutro', pretendida pela ideologia de género, afasta ao mesmo tempo, quer a dignidade humana da constituição sexualmente diferente, quer a qualidade pessoal da transmissão generativa da vida.

A misteriosa ligação da criação do mundo com a geração do Filho de Deus, que se revela no fazer-se homem do Filho de Deus no seio de Maria – Mãe de Jesus e Mãe de Deus – , por nosso amor, não deixará de nos deslumbrar e deixar estupefactos e comovidos. É esta revelação que ilumina definitivamente o mistério do ser e o sentido da vida.

A imagem da geração irradia, a partir daqui, uma profunda sabedoria a respeito da vida, pois é recebida como um dom. A vida exalta-se no dom: gerá-la, regenera-nos; gastá-la, enriquece-nos. A geração da vida humana jamais poderá ser vista como uma mortificação da mulher e uma ameaça para o bem-estar colectivo.

A aliança geradora do homem e da mulher é uma protecção para o humanismo planetário dos homens e mulheres; não um handicap. A nossa história não será renovada se recusarmos esta verdade.

É preciso encontrar sensibilidade para as diversas idades da vida, particularmente para com as crianças e os idosos, isto é, os mais débeis. Uma sociedade que procure comprar e regular burocraticamente os cuidados a ter com os mais débeis, será uma sociedade que já perdeu o sentido da vida. Não o transmitirá aos filhos pequenos e não o reconhecerá nos idosos. Talvez por isso, sem nos darmos conta, construímos cidades cada vez mais hostis às crianças, e comunidades cada vez menos hospitaleiras para com os idosos. Com muros, sem portas nem janelas. Cidades que, em vez de proteger, sufocam. É um dos dramas da errática cultura do lucro vigente em grande escala.

O acompanhamento responsável da vida humana, desde o seu nascimento até à morte natural é trabalho de discernimento e de inteligência, trabalho de amor realizado por homens e mulheres livres e apaixonadas. E em que os pastores não sejam mercenários.


Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

DM

14 abril 2018