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A Vaidade

Há cerca de dez anos, mobilizados por um entendimento que colocava a visão integrada como paradigma para o novo modelo de gestão de cidade, que deveria prevalecer entre os decisores, atrevemo-nos ( professores Paulo Sampaio, José Oliveira e eu próprio) a apresentar aos protagonistas da governação de então e aos que se perfilavam para o ser nas eleições locais de 2013, um novo conceito, estruturado na capacidade de reunir, num conselho estratégico, os recursos e a capacidade de gestão dos seus protagonistas para enfrentar os desafios comuns que se colocavam a Braga. Entre eles, estavam, com naturalidade, a Câmara de Braga e a Universidade do Minho. Apesar dos avanços e recuos e uma má interpretação de conceito desde o início, a verdade é que se foi assistindo, a medo, e no meio de tanto protagonismo saloio, a uma diversidade de opiniões, incompreensões e ciúmes que tropearam o que devia ser simples, embora trabalhoso. E agora, uma década depois, com um conselho estratégico de que não se houve falar há muito tempo, os protagonistas desta crónica, sentaram as suas equipas num frente a frente e parecem, finalmente, querer dar um rumo comum à estratégia de uma cidade referência no panorama nacional, mas a quem falta o rasgo e a capacidade de fazer acontecer. Deve-se reconhecer, no entanto, o trabalho desenvolvido na atração de investimento e na aposta das tecnológicas em Braga na última década, o que não invalida que a cidade e as pessoas, continuem à espera de soluções estruturantes que dinamizem o futuro, para além do óbvio. Espera-se que, deste primeiro round entre as duas equipas, saia a construção prática, objetiva, pragmática, de soluções inovadoras, disruptivas e não uma versão 2.0 da disputa inócua a que assistimos. É preciso ablaquear a cidade dos velhos do restelo, dos que fogem às responsabilidades e dos que, sem capacidade de rasgo, limitam a ação. Num conjunto de três artigos que escrevi, com uma das maiores referências atuais, a nível europeu e mundial em cidades inteligentes, Jorge Saraiva, estão definidas linhas mestras que têm sido assumidas em múltiplas soluções apresentadas por cidades da dimensão de Braga e não só. Como pano de fundo, aparece a tecnologia ao serviço da cidade e não o inverso e uma linha vermelha muito clara: as pessoas, os cidadãos, são os protagonistas e tudo o que possa ser decidido, deve-o ser tendo em linha de conta as suas necessidades, a sua qualidade de vida, a sua dignidade e a polarização dos interesses em torno das diferentes dimensões da Sustentabilidade do que se faz e não apenas do negócio que pode gerar. Ao contrário do que se desenha em múltiplos fóruns, por mera conveniência dos seus protagonistas, a maior força de uma cidade para se reinventar e descobrir os prazeres mobilizadores da Qualidade de Vida, reside na simplicidade das ações e não na espetacularidade das soluções. O que se espera agora dos dois protagonistas, é que não compliquem o que é simples, que sejam capazes de desenhar um futuro integrador das políticas em todas as dimensões onde podem ou têm uma palavra a dizer e que parem de agir em sentido contrário ao bem comum. Do mesmo modo, se espera, que de uma vez por todas, as decisões possam ser alvo de debate público e não um exclusivo da mesa de trabalho, que os documentos produzidos posam ser lidos pelo comum dos cidadãos e que sobre eles, em liberdade, todos possam, se o quiserem, dar um contributo positivo para a construção de uma cidade, não de futuro, mas com futuro. O que está a ser feito em múltiplas cidades em todos os continentes e que deveria merecer uma boa dose de humildade, decorre, em primeiro lugar, mais do que dinheiro, de uma nova cultura de gestão e de responsabilidade pública. Já aqui o escrevi e recordo, olhando para o espaço comum europeu que só temos um caminho: ao olhamos para a Europa e para o mundo a partir da nossa terrinha, ou olhamos para a nossa terrinha a partir da Europa e do Mundo. Esperemos que desta vez, a sagacidade, a visão, o rasgo e a capacidade de fazer substituam o pecado da Vaidade.
Autor: Paulo Sousa
DM

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20 fevereiro 2022