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A triste solução da eutanásia

Muito se tem falado na eutanásia nos últimos tempos e, tanto quanto parece, entre os nossos dirigentes políticos, há quem queira impor ou facilitar aos cidadãos do nosso país este modo de acabar com a vida terrena duma pessoa.

Diz o Catecismo da Igreja Católica (n. 2280), a respeito deste tema: “Cada qual é responsável perante Deus pela vida que Ele lhe deu. Deus é o soberano da vida, devemos recebê-la com reconhecimento e preservá-la para sua honra e salvação das nossas almas. Nós somos administradores e não proprietários da vida que Deus nos confiou; não podemos dispor dela”.

É este o pensamento que um cristão deve alimentar, a fim de que não sinta e tolere a tentação de acabar, por motu próprio, com a sua vida. Podem não ser as circunstâncias que rodeiam esta mesma tentação as mais agradáveis. Inclusivamente, em certas situações, diz o mesmo Catecismo (n. 2277), que “a cessação de tratamentos médicos onerosos, perigosos, extraordinários ou desproporcionados aos resultados esperados, pode ser legítima. É a rejeição do “excesso terapêutico. Não que assim se queira dar a morte; simplesmente se aceita o facto de a não poder impedir”

No entanto, no mesmo número, faz notar que “(...) uma acção ou uma omissão que de per si ou na intenção, cause a morte com o fim de suprimir o sofrimento, constitui um assassínio gravemente contrário à dignidade da pessoa humana e ao respeito do Deus vivo, seu Criador”. E acrescenta: “O erro de juízo em que se pode ter caído de boa fé, não muda a natureza do acto mortífero, o que deve ser sempre condenado e posto de parte”.

A razão desta condenação é clara. Cada ser humano não existe porque assim o decidiu. Houve quem tomasse essa opção, não por querer dar-lhe uma vida cheia de dificuldades e sofrimento. A criação do homem foi pensada por Deus de modo a que ele fosse um ser feliz aqui na terra e, depois, conquistasse a plena felicidade na eternidade. Para isso dotou-o com uma alma imortal e com a capacidade de agir sempre de acordo com o que moralmente era devido. A frase bíblica de que fomos criados à imagem e semelhança de Deus (Gén 1, 26) significa que a nossa conduta reflecte uma dimensão do ser divino que é a liberdade.

Deus é libérrimo e perfeito em tudo o que faz. Por isso, a nossa existência não é uma fatalidade, nem algo que apareceu por descuido ou desleixo divino. Pelo contrário, existimos porque Deus, na sua bondade perfeita e infinita, quis que houvesse um ser terreno – dotado de corpo e alma – que pudesse usufruir da sua própria felicidade, que é eterna. A essa realidade chamamos comunmente “Céu”.

A liberdade humana é tão considerada por Deus que, a respeito da cessação de tratamentos já referida (o chamado “excesso terapêutico”, no mesmo n. 2277, salienta o mesmo Catecismo que “as decisões devem ser tomadas pelo paciente, se para isso tiver competência e capacidade; de contrário, por quem para tal tenha direitos legais, respeitando sempre a vontade razoável e os interesses legítimos do paciente”. Insistimos que na lógica desta decisão, não se quer objectivamente dar a morte ao doente, mas, verificadas todas as circunstâncias possíveis sobre a sua sobrevivência, se considera que não é viável – digamos, cientificamente – evitar o seu falecimento.

A eutanásia é diferente e, em certo sentido, o oposto a esta atitude: afirma que a morte é a solução para o meu problema de sofrimento físico ou psicológico, ou de alguém que a medicina está a tratar. Para tanto a provoca, antecipando-a ao que, naturalmente, iria acontecer.

Por esta razão, salienta a Igreja que: “Quaisquer que sejam os motivos e os meios, a eutanásia directa consiste em pôr fim à vida de pessoas deficientes, doentes ou moribundas. É moralmente inaceitável” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2277).

Recordando o que se citou no início: “Nós somos administradores e não proprietários da vida que Deus nos confiou”. Esta realidade deve fazer-nos meditar que a eutanásia não é solução para o homem, que se sobrepõe a Deus em relação ao momento de deixar esta vida. Deus sabe mais e melhor. Ama-nos muito mais do que nós a nós mesmos. E com absoluta diligência: o seu amor é perfeito e isento de qualquer deficiência. Por isso, aceitar o momento da morte de acordo com a sua vontade – e não da nossa – é uma atitude de verdadeira e lógica sensatez. O contrário, para um cristão, não tem qualquer sentido objectivo.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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27 março 2021