O fim da geringonça traçou definitivamente o destino de António Costa e o futuro próximo do país, mostrando a fragilidade e incapacidade da direita social e do centro-direita para aproveitar o desgaste duma governação que, ao cabo de meia dúzia de anos, se limitou a reverter políticas e medidas do anterior governo – muitas das quais adoptadas por força de imposições de instituições internacionais de regulação para salvar a nação do descalabro em que o governo socialista de Sócrates a tinha mergulhado – e a gerir o sistema à esquerda, distribuindo benesses e rendimentos à custa de uma altíssima carga fiscal e de uma desmesurada e sistemática política de cativações orçamentais, sem verdadeiramente operar as mudanças estruturais necessárias ao desenvolvimento nacional. E tudo isso em nome do interesse na manutenção do poder de quem não ganhou eleições (em 2015) ou não as ganhou com maioria absoluta (em 2019).
Só que, temendo o desgaste eleitoral, os parceiros se cansaram: uns, os do governo, por não estarem dispostos a sacrificar o cumprimento das regras europeias do défice e da dívida e as metas de crescimento que o PRR permite almejar; e os outros, os de esquerda radical e marxista, por receio de uma menor exigência ao nível das políticas salariais, das leis laborais e da nacionalização ou reforço do sector público de algumas importantes áreas da economia e da vida social, designadamente nos transportes, energia, saúde e educação.
E foi então que o primeiro-ministro (PM) se lembrou da mais arriscada jogada política: antecipar as eleições legislativas perante o chumbo do orçamento. Na hipótese pouco provável de as perder, pediria a demissão, trocando uma problemática e exasperante vida política nacional por um qualquer tranquilo posto no executivo comunitário ou num órgão internacional de prestígio. No caso mais provável de as ganhar sem maioria, tentando uma solução “à Guterres” ou uma aliança com um partido menor, como o PAN ou o Livre, num horizonte de temporal de grande incerteza. E no cenário mais difícil e improvável – o de uma vitória por maioria absoluta –, garantindo um governo de legislatura que lhe permitisse escolher e executar políticas públicas de alcance estrutural, com total autonomia.
Apesar do risco da aposta, o momento afigurou-se-lhe imperdível – culpabilização dos seus parceiros de esquerda pelo chumbo orçamental e pela realização de eleições antecipadas, num período em que o país de mais estabilidade carecia para rápida aplicação dos excepcionais fundos comunitários; e desunião e falta de liderança interna nos dois partidos do centro direita tradicional, com congressos eleitorais marcados para as vésperas das legislativas antecipadas, literalmente apanhados com “as calças na mão”.
Foi neste enquadramento extremamente favorável que António Costa foi a jogo, com o alto patrocínio de “Sua Excelência o Senhor Presidente da República”, de quem recebeu a delicadeza de conservar o Governo em funções, com evidentes ganhos de publicidade eleitoral. E com uma ajuda não despicienda que importa aqui sublinhar: a do esperado crescimento dos partidos da direita mais liberal (IL) e mais radical, nacionalista e populista (CHEGA), com programas eleitorais manifestamente anti-sistema ou contra o regime.
Estava assim criado o cenário ideal para o recentramento ideológico do PS, à moda de Soares e de Guterres, sem os tiques despóticos e cleptocráticos de Sócrates e sem a inclinação frentista da esquerda do ministro Pedro Nuno Santos.
E como se isto não bastasse, um factor imprevisto de última hora haveria de impulsionar o fiel da balança para o ponto central da vitória de Costa: a probabilidade de vitória que muitas sondagens, jornalistas e comentadores começaram a atribuir ao PSD, mas a carecer de apoio parlamentar do Chega para governar, e a natural instabilidade e incerteza que uma tal solução (espécie de geringonça à direita) inevitavelmente criaria, tanto em duração como em fiabilidade.
Ora foi justamente da conjugação destes dados que nasceu uma forte dinâmica de voto útil à esquerda. Pior que um governo socialista liderado por António Costa, terão pensado muitos eleitores do PCP e do BE, seria um governo de direita dirigido por Rui Rio, com o apoio parlamentar do Chega!
E tanto bastou para convencer cerca de 340 mil eleitores a engrossar o número dos que optaram por neutralizar os votos – e foram mais de um milhão! – da direita mais liberal e da radical.
De resto, foram também essas mesmas sondagens da segunda semana da campanha que levaram A. Costa a moderar o seu discurso, deixando de pedir uma maioria absoluta e prometendo uma postura dialogante com todas as forças políticas, fosse qual fosse o resultado.
Eis por que Costa é um sortudo: quando perdeu as legislativas de 2015, ganhou a liderança do governo com a habilidade da “geringonça”; quando, em 2019, voltou a ganhar as eleições, mas sem maioria, formou governo sem qualquer acordo escrito de incidência parlamentar, à frente do qual se manteve durante meia legislatura; e, finalmente, quando não contava com maioria absoluta, acabou por alcançá-la à custa do eleitorado dos partidos de esquerda que chumbaram o OE de 2022, o mesmo que, por ironia, se propõe agora voltar a apresentar no parlamento com aprovação previamente garantida!
Resta saber se à sorte de Costa corresponderá a sorte de Portugal. A pouco mais de dois anos das comemorações do cinquentenário da revolução de Abril, é já tempo de juntar o desenvolvimento do país à democracia então instaurada, homenageando assim, verdadeiramente, os ideais revolucionários.
Portugal merece essa sorte. E os portugueses agradeceriam.
Autor: António Brochado Pedras