“Independência do Monde: a protecção de um bem comum”. Ainda que não fosse óbvio, o título do editorial do director do diário francês Le Mondeassinalou, na edição datada de quinta-feira passada, o fim de um período conturbado na vida do jornal. A turbulência, como Jérôme Fenoglio escreveu, tinha terminado poucos dias antes, na segunda-feira, quando os dois accionistas maioritários do grupo Le Mondereconheceram formalmente o direito de validação reivindicado pelas redacções. Esse direito confere ao “pólo de independência” (designação do grupo de accionistas minoritários que reúne as sociedades de jornalistas, de funcionários, de leitores e de fundadores) a faculdade de aprovar ou de recusar qualquer mudança de controlo do capital. O direito de aprovação oferece uma garantia de independência editorial ou, nas palavras de Jérôme Fenoglio, “uma protecção sem precedentes obtida graças a uma mobilização excepcional”.
Para Jérôme Fenoglio, “esta protecção adicional da nossa liberdade editorial é inédita na paisagem mundial dos mediadetidos por accionistas privados”. O director do jornal reconhece depois que o êxito se deve a um extraordinário combate protagonizado pelo conjunto dos jornalistas dos títulos do grupo (Le Monde, Télérama,Courrier International, La Vie), que obteve rapidamente um forte apoio dos leitores, pessoas desconhecidas ou protagonistas prestigiados em sectores diversos da vida pública francesa e estrangeira.
A lista de mais de cinco centenas de figuras públicas de múltiplos países que subscreveram um apelo pela independência do grupo Le Monde, divulgada em três páginas da edição de 14 de Setembro, impressiona. É que a liberdade e a qualidade da informação não parece ser – e para muitos, lamentavelmente, não é – um bem relevante, não sendo, por isso, algo que mereça peculiar atenção e, muito menos, por que valha a pena lutar, mesmo que seja apenas emprestando a autoridade de um nome. E, no entanto, julgou importante defendê-las gente prestigiada como, por exemplo, Paul Auster, escritor; Françoise Barré-Sinoussi, viróloga e Prémio Nobel em Fisiologia e Medicina; Emmanuelle Béart, actriz; Juliette Binoche; actriz; Jane Birkin, cantora; Christian Boltanski, artista plástico; William Boyd, escritor; Peter Brook, encenador; Emmanuel Carrère, escritor; Javier Cercas, escritor; Yves Coppens, paleontólogo; Israël Finkelstein, director do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv; Marcel Gauchet, historiador; Jürgen Habermas, filósofo; Serge Haroche, físico, Prémio Nobel da Física;Isabelle Huppert, actriz; Siri Hustvedt, escritora; Rem Koolhaas, arquitecto; Julia Kristeva, linguista; Ken Loach, cineasta; Jean-Luc Marion, filósofo; Annette Messager, artista plástica; Adam Michnik, fundador do jornal polaco Gazeta Wyborcza; Wajdi Mouawad, director do Théâtre de la Colline; Cees Nooteboom, escritor; Matthieu Ricard, monge budista; Timothy Snyder, professor na Universidade de Yale; Bertrand Tavernier, cineasta; Lilian Thuram, ex-jogador de futebol; Caetano Veloso, cantor; Lech Walesa, Prémio Nobel da Paz; e Michael Walzer, professor emérito da Universidade de Princeton.
Jornalistas e leitores, anónimos ou figuras públicas, exibiram, de facto, aquilo que o director do jornal Le Mondequalificou como uma “demonstração de força”. Ela “federou-se em torno de uma responsabilidade partilhada: a defesa do bem comum que constitui a informação livre, veiculada pelos nossos jornais, pelos nossos sitese pela tradição de jornalismo de alta qualidade que os anima desde a sua criação”. Como noutro sítio do jornal se escreve, “numa época em que mesmo os factos são contestados, a liberdade e a independência da imprensa são bens públicos mais preciosos do que nunca”.
O resultado demonstrou que a mobilização pela independência jornalística valeu a pena. Que há uma relação entre a propriedade dos mediae a liberdade e qualidade da informação, foi algo que se tornou mais óbvio com este episódio. É curioso que ocorra na mesma ocasião em que a possível compra da TVI pelo grupo que detém o Correio da Manhã e a CMTV é incapaz de suscitar apreensão, escrutínio ou, sequer, especial interesse público.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes