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A Primavera não-árabe de Portugal

Também Portugal vive a sua Primavera, não-árabe (porque é esmagadoramente católico), não com recurso à violência, mas através de uma espécie de consenso tácito.”

Portugal experiencia hoje uma recuperação económica gradual. Com ela vem a confiança e o otimismo. O futebol traz alegrias. A Eurovisão instila um cântico novo, suscetível de romper com o fast food a que a música contemporânea nos terá habituado, no entendimento de Salvador Sobral e de muitos outros nostálgicos/apologistas de uma melodia diferente.

Com um coração a palpitar de novo para o mundo, o Portugal de brandos costumes, de boa comida e sol agradável, está na moda. Madonna é apenas o rosto conhecido de um mar de estrangeiros relativamente anónimos que dão à costa. Lisboa faz a capa dos jornais e a delícia de milhares de turistas desencantados com uma Europa assolada pelo terrorismo. Nada será como d’antes.

O português é unido na alegria e na desgraça, como mostrou a camaradagem de sorrisos resultante das conquistas da Bola e, no campo oposto, a solidariedade gerada pelos incêndios. Porém, o português tem um defeito: vive desafogadamente até que alguém de fora lhe imponha austeridade. O FMI teve, no entanto, um aspeto positivo: os Portugueses confirmaram que quando lutam com devoção por algo, superam tudo, todos e a si próprios inclusive.

A nova conjuntura, repetidamente noticiada pelos media, de que os grandes acabam por morder a rede da justiça, gera menos apatia face a um sistema que muitos têm ou tinham por injusto. Agora, grandes e pequenos são escrupulosamente vigiados e auscultados.

Desde o sem-abrigo que furta, ao Juiz pouco justo, ao governante que vivia faustosamente, ao banqueiro imoral, ao dirigente desportivo e ao vice de Estado alegadamente corruptores, são todos alegadamente qualquer coisa. A televisão denuncia, castiga e, por vezes, absolve, mais rápido que os tribunais.

O público quer pão e circo, embora mais que nunca, anseie saber o que sucederá a um sem-número de arguidos famosos. Serão absolvidos pelas alíneas menos evidentes da constituição, que preveem exceções à regra, ou, por vezes, tornam a regra a exceção?

O diabo, dizem, está nos detalhes… Um bom advogado conhece bem os meandros escrupulosos da lei com que defender um criminoso com dinheiro, não obstante os desaires da sua conduta. Mas o Povo está expetante. Já que aqui chegámos, pensa, qual o próximo capítulo? A vizinha Espanha condena: Messi é disso um exemplo.

Por aqui, pelo Portugal de brandos costumes, à justiça o que é da justiça, aos políticos o que é da política, repete incessantemente Marcelo, amparado por Costa. Quem não pensa assim é Angola, que coloca obstáculos a visitas de Estado, de que é exemplo, a da Ministra da Justiça portuguesa. A própria Angola parece ser vulnerável a ventos de mudança.

Ninguém sabe ao certo o que vai suceder. Serão apenas obras de fachada, que não afetam a construção do edifício, indagam alguns? Ou estão em causa os próprios alicerces de um sistema que quer ser (mais) efetivo após décadas de estagnação? Num dos meus vários escritos, ousei prever a Primavera não-árabe de Angola, uma revolta do Povo, semelhante ao que sucedera em países muçulmanos.

Mas confesso que me equivoquei. Se desta vez estiver certo, a Primavera não-árabe parece brotar da própria elite. Termino com uma observação. Também Portugal vive a sua Primavera, não-árabe (porque é esmagadoramente católico), não com recurso à violência, mas através de uma espécie de consenso tácito.

O Português está expetante: é europeu de uma Europa que vive momentos complexos, é parceiro transatlântico de uns Estados Unidos que aparentam estar, eles próprios, incrédulos face ao seu Presidente. Perante este cenário, a quem pertencemos? Onde está a nossa essência, o nosso ADN? Na Europa, em África, em nós próprios? Quem quer ou pode ser verdadeiramente nosso amigo (se os há, é certo) num mundo imprevisível?

Merkel reconhece ser tempo de os Europeus ponderarem ser Senhores do seu destino. Num próximo artigo de opinião, analisarei se o Oriente (a China fundamentalmente) pode ser promissor para um Portugal que não pode ficar preso às incertezas conjunturais e/ou às fragilidades do sistema.


Autor: Paulo Duarte
DM

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18 fevereiro 2018