Como não sou Pandemia nem por ela responsável, como faço parte do enorme grupo a que chamo “Os Outros” e afinal, sou eu que escrevo, é obviamente aos jovens que vou dirigir-me. Faço-o hoje como tantas outras vezes o fiz, quer perante uma enorme plateia nas escolas que fui visitando ao longo da minha vida, quer em textos ou histórias que fui escrevendo e que fazem hoje parte do meu espólio, quer em alguns artigos neste Jornal.
Faço-o sempre com enorme prazer pelo amor que por eles sinto. Como Mãe, amo também os meus filhos com aquele amor maior que o Mundo tem. No entanto, nunca deixei de lhes chamar a atenção para atitudes ou excessos de linguagem em que os surpreendi. Nunca deixei de os corrigir ou mesmo castigar e disso nunca me arrependi, e disso me sinto hoje feliz. E é com esta mesma atitude e determinação que hoje me dirijo aos jovens. Não sou mãe deles? Não, não sou, mas fui educadora toda a vida e sê-lo-ei até à minha derradeira viagem. É, portanto, nessa qualidade que hoje lhes dirijo o que se seguirá.
Quase todos os dias, via TV, nos chegam notícias de intervenção policial para dispersar festas/ajuntamentos ilegais realizados por jovens (e infelizmente e provavelmente com muitos menos jovens que deveriam dar o exemplo…). Por vezes, também, pequenas entrevistas feitas por jornalistas a jovens, relatando os seus desabafos, as “chatices” desta vida que são forçados a levar, etc. Alguns até dizem que não têm medo de apanhar o vírus, que nos jovens nem sequer é grave, que tudo será melhor que a “chatice” do confinamento.
Pois muito bem. São opções de vida discutíveis, mas, enfim, “morra Marta, morra farta”! Mas os jovens, novos mas não estúpidos, nunca pensaram nos “Outros” de que falo em epígrafe? Nos seus pais, avós e demais familiares e amigos menos jovens com quem convivem? Não me digam que nunca ouviram falar do estranho e enorme contágio deste vírus. E, consequentemente, do enorme desgaste físico e psicológico que essa avalanche de contagiados vai causar a todos os profissionais de saúde. E os custos económicos resultantes dessas vossas brincadeiras? Não me digam que não sabem, que nunca ouviram os médicos dizer que um só infectado pode infectar meia dúzia! Não, não digam, porque, se o disserem, tenho de lhes perguntar por onde têm andado e, até talvez, chamar-lhes néscios. E não pensem, queridos jovens, que são vocês os únicos a sofrer. Isto custa a todos! Isto é muito difícil para todos! E ainda vos digo mais: para os mais idosos, para muitos dos idosos, particularmente os dos lares, privados da visita dos seus familiares, é muito pior que para vós que passais a vida a ver-vos e a falar-vos nas redes sociais. Menos egoísmo, meus queridos, menos egoísmo ficava-vos muito bem.
E por último, um conselho. Já ouviram falar de um tal Carl Yung, considerado o pai da psicologia analítica? Não? Pois pesquisem, até porque ele anda por aí, pelas vossas redes sociais e talvez aprendam alguma coisa sobre o sofrimento e sobre o estoicismo que é, ao fim e ao cabo, a arte de não sofrer, a arte de aprender a viver em paz, a arte de encontrar a felicidade no pouco que temos.
Não, não vou pedir-vos desculpa. Não quis ofender-vos, apenas senti um irreprimível impulso de vos lembrar algo que me parece propositadamente esquecido.
Autor: Maria do Céu Nogueira