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A miséria da fartura

Passo muitas vezes, olho, e tenho pena. As lojas do comércio estão cheias de coisas e os empregados cheios de tédio porque não entra ninguém para comprar. Roupa aos molhos, sapatos aos milhares, artigos de adorno aos milhões, ruas apinhadas de gente que olha, pouco para e nunca entra. Mas olhando para estes mirones vejo-os bem vestidos, bem calçados e bem cheios de adereços de enfeite. Mas tiveram de comprar senão andavam como no meu tempo em que se via, na cidade, um pé calçado e outro descalço para poupar um dos sapatos, ou as calças tão remendadas que nem se sabia qual era o pano original. Felizmente que temos agora um cenário oposto: as pessoas têm os guarda-fatos cheios, as sapateiras e as gavetas suficientemente guarnecidas. Há quem ainda não tenha nada disto, mas esta mesma maioria não tinha dantes. Mas então por que razão o comércio não vende, se há tantos a ter tanto? Não vende porque as pessoas não precisam de mais roupa, nem de mais sapatos. Não vendem porque a produção é muito maior que a procura e não vendem porque as pessoas já têm na sua terra, vila ou cidade próximas, os mesmos modelos que dantes se vendiam nas cidades maiores. Já não é preciso ir ao Porto, compra-se em Braga; não é preciso ir a Braga, compra-se em Monção. A roupa está cada vez mais ao alcance das pequenas bolsas. Dantes era a moda das bolas e toda a gente comprava um vestido às bolas, as golas eram maiores ou menores e renovava-se o guarda-fatos consoante a moda ditava. Agora não há moda, os jovens vestem-se como querem, sem olhar se é às bolinhas ou ao tamanho das golas. As lojas da roupa cara, dos modelos de estilistas conceituados, apenas vendem para uma clientela menor; a maioria veste ponta acima, ponta abaixo, costas ao léu ou tapadas até ao nariz e não liga nenhuma ao que dizem os desfiles da moda, ou ao que se vai usar para a próxima primavera ou verão. As lojas ou se reconvertem a estas roupas informais ou estarão condenadas a “vê-los passar”. Esta é a realidade e não adianta o pensamento contrário ou fidelizado ao tempo antigo; como em tudo, quem fica parado, fica a falar sozinho. E, por isso, vamos ver desaparecer aos poucos lojas que dantes tinham clientelas fidelizadas. Assim, causa-me amargura ver desaparecer livrarias de nomeada, sapatarias de referência, lojas de tecidos de décadas, alfaiatarias que adquiriram ao longo dos tempos um certo estatuto; livrarias que viraram casa de comes e bebes, sapatarias que viraram lojas de roupa ou colchões, alfaiatarias que desapareceram para sempre! São culpados? Numa medida muito pequena, sim, porque não souberam ler os sinais da roupa barata, do calçado de baixo preço; mas só em parte, porque a produção em barato que lhes ditou o desaparecimento, está a fazer o mesmo aos que hoje ainda vendem alguma coisa. A produção em excesso vai trazer uma oferta tão grande que a procura não absolverá o que se produz, nem por muito que se gaste. E depois acabou a moda. A moda agora são os saldos. A oferta, na cidade de Braga, é desproporcionada à capacidade de poder de compra. Um exemplo: quantas sapatarias tem a rua do Souto? Quantas lojas de roupa lá estão sediadas? E quem fala da rua do Souto pode falar doutra qualquer rua desta cidade, ruas dos Chãos, Capelistas, etc. etc. Umas já fecharam e outras são resistentes a desistentes. A fartura é muita, não falta nada à vista, mas Braga não tem poder de compra para tanta oferta. Daí que podemos estar a assistir à miséria que advirá desta fartura. Os centros comerciais seguir-se-lhe-ão.
Autor: Paulo Fafe
DM

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25 fevereiro 2019