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A medição dos sonhos

Os 60 anos da primeira edição da obra “A Casa Grande de Romarigães”, que se cumprem em 2017, são uma boa desculpa para pegar no livro e nos óculos. Ia eu por aqui: “Quando se procedeu ao restauro da Casa Grande, que foi solar dos Meneses e Montenegros, houve que demolir paredes de côvado e meio de bitola…”, quando me lembrei do trato firmado para medir uns terrenos: “Tem que ser hoje, mãe – quero construir um arranha-céus!” Vontade da canalha que não custa levar a sério e, já se sabe, não se falta ao prometido, muito menos a uma criança. Terá sido aquele “côvado” que me despertou a lembrança?

O côvado, ou cúbito, é uma medida baseada no comprimento do antebraço, medido da ponta do dedo médio até ao cotovelo. Esta, como outras que perduraram durante séculos, vem do tempo dos afonsinos, quando não dos árabes ou romanos. Até há uns bons dois séculos era um rol que nunca mais acabava, fosse para a medição do volume de líquidos (almude, pipa, quartilho, canada) ou de secos (moio, fanga, alqueire), do comprimento e distância (braça, vara, pé, légua), de massa (arroba, arrátel, onça) ou de área de terreno (jeira, aguilhada).

Para piorar a confusão, os padrões eram diferentes de região para região e a própria terminologia era muito diversificada. Apesar de vários monarcas terem tentado a sua uniformização e a adopção de padrões estáveis (sobretudo para comodidade das relações comerciais e adequada cobrança de impostos), apenas no reinado de D. Maria II veio a ser introduzido o sistema métrico, que ainda hoje vigora. Era a famosa globalização a despontar no horizonte…

Claro que algumas destas unidades ainda sobreviveram a D. Maria II, sobretudo nas zonas rurais, mas já quase se perderam definitivamente do falar e da memória. Para não complicar com estes arcaísmos que apenas soarão aos mais antigos, toca mas é a ver por onde andará a fita de 25 metros e pôr mãos ao trabalho. É que o arranha-céus há-de ter uns bons três côvados de altura e janelas da largura dos sonhos!


Autor: Fernanda Lobo Gonçalves
DM

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30 abril 2017