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A linguagem “pública” também é “privada”!

Surge-me a ideia de uma nova rebeldia, uma verdadeira originalidade – ser delicado e simpático –, bem diferente da rebeldia de megafone-a-tiracolo. O que importa é valorizar as pessoas que se conseguem fazer ouvir, que são educadas e não poluem o espaço.

Sei que é muito mais fácil falar alto e empurrar os outros ou dizer aquela velha “ai eu sou muito directo, comigo é tudo pão-pão; queijo-queijo, digo tudo o que penso”. Mas, isso não é honestidade nenhuma é sim malcriadice, preguiça e egocentrismo.

As pessoas delicadas também dizem tudo o que pensam, mas sabem dizê-lo sem magoar o outro, não são hipócritas, são generosas, reconhecem que a linguagem pública também é privada e que a mesma desempenha um papel fundamental na reprodução da cultura, tem uma influência basilar na formação da identidade social, pode transportar elementos inclusivos ou determinantes linguísticos que estabelecem relações de poder desiguais entre pessoas e grupos e dão-se a este trabalho, porque ser delicado dá trabalho. Eu gosto particularmente da ideia de que podemos ser rebeldes e ser generosos.

Reparem nisto: levamos com portas na cara todos os dias; o sucesso é bruto; somos massacrados com ruído constante, até as músicas que ouvimos na maioria dos locais públicos são anestésicos que nos impedem de pensar; na televisão toda a gente grita uns com os outros; as “fitas” são dramas, tragédias, desastres, mortes e infelicidade; entopem-nos os email’s com coisas idiotas; não temos tempo para fazer aquilo que gostamos; as conversas são na maioria das vezes monólogos de pingue-pongue, não me admira que a delicadeza seja a nova rebeldia, esta nova rebeldia não quer dizer que tenhamos que voltar ao tempo das mulheres muito hirtas com o cabelo armado, luvas e sapatos de bico e salto agulha ou que desatemos a dançar o minuete, nada disso, só precisamos respirar fundo e sermos um bocadinho mais delicados.

Também não precisamos de ser os sôfregos alternados que repetem “tim-tim por tim-tim”, enfadonhos monólogos sufocados, só para poderem sentir o “eu e o outro de mim” e muito menos o intelectual lúdico e solidário com os dramas da sociedade em que se integra, chapinhando em imagens de uma unidade perdida, com a boca de coragem.

Também é dispensável o “armar-se em vedeta”, procurando de forma típica ocupar o primeiro plano da cena!

Pessoas assim vão muito mais longe do que simplesmente contestar ideias, demonstram uma séria falta de respeito e de consideração pelo outro.

Isto não inviabiliza que cada sujeito tenha o seu predicado, que até lhe pode garantir o essencial, mas não lhe garante que esteja melhor preparado para determinadas circunscrições da vida, por isso, não querendo radicalizar, sugiro, mesmo, temas de cidadania na expressão e no uso da linguagem, que é comunicação e que tenha como mote máximo a dignidade no trato entre as pessoas.


Autor: Sílvia Oliveira
DM

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24 fevereiro 2018