Salman Rushdie, o autor de “Os versículos Satânicos, foi, há tempos, esfaqueado quando se preparava para falar numa palestra. O escritor de Bombaim há muito que se escondia em Inglaterra dos ultra conservadores islâmicos por causa deste livro. A expressão escrita foi assim gravemente atacada e ofendida na sua liberdade. É verdade que a liberdade se afirma na totalidade da expressão do pensamento, mesmo que seja uma heresia. Mas o pensamento, mesmo quando é herético, deve refletir se deve ofender os sentimentos dos outros, sejam eles de que natureza forem e em especial os religiosos. Cada ser humano é a religião que professa e as convicções que daí dimanam. Reside aqui a necessidade intrínseca do ser que se transforma em identidade. Há tanto para falar, há tanto para denunciar, há tanto para escrever, e não entendo bem que, em nome de liberdade de expressão, se critique os credos de todo um povo, as suas práticas religiosas ou as suas devoções. Porque isso constituiu-se, em cada indivíduo, um bem imaterial que ninguém tem o direito de profanar com as suas discordâncias. Ao fazê-lo, julgo que se constitui como uma invasão desta propriedade. Podemos mencionar José Saramago quando escreveu “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, Guerra Junqueiro e “A velhice do Padre Eterno”, Eça de Queirós e a “Relíquia”. Estes senhores da escrita, caíram no erro de racionalizar/ironizar sentimentos religiosos cometendo o mesmo excesso de Salman Rushdie, em Os versículos Satânicos. Se um de nós quisesse tornar-se conhecido no mundo da escrita, e talvez apontado como um Nobel da literatura, bastava racionalizar os ocorridos no velho testamento. O sentimento de fé é unipessoal, é um constructo que um meio ambiente favoreceu no seu crescimento. Não é uma coisa a que se possa estabelecer um padrão de comportamento com o fazemos nas leis universais da física. Há pessoas que o único sentimento profundo que têm, para além do materialismo quotidiano, é a fé. São personalidades onde as especulações filosóficas ou existencialistas não ocupam lugar: não se deleitam em considerações metafísicas para encontrar alguma conexão entre a crueza do raciocínio e a beleza suave duma fé. Os olhos crentes acreditam sem ver. Os existencialistas, como sabem, nunca encontraram a razão da vida e não encontraram porque queriam chegar à verdade da existência pela lógica racional. Ora os sentimentos, como o amor, a amizade ou a fé, não se racionalizam, ou se sentem ou se não sentem; quando os tentamos explicar pelo racionalismo estamos a entrar num mundo da prova. Penso que há liberdade para que cada autor escrever o que pensa, mas como na via pública se transita sem restrições, ninguém admite, no entanto, que andemos aos encontrões. Não precisamos de empurrar para dizermos estou aqui. O agressor que esfaqueou Salman Rushdie não pode deixar de ser condenado pelo que fez; mas há atenuantes para todo aquele que defende a sua propriedade religiosa ou mesmo moral. Podemos ficar cego de um olho por ter sido esfaqueado; morre-se pessoalmente por ter matado a fé. E a fé, para muita gente, é uma propriedade inquestionável. Concorde-se ou não, é assim que a fé existe em cada indivíduo. Tem a força da transcendência. Sejamos justos no julgamento. Se Rushdie não tivesse tentado roubar a fé ao seu agressor, certamente este não teria tentado roubar-lhe a vida. Matar uma fé é matar a mãe da crença. A religião é como uma mãe. Tem defeitos, mas deles só nós podemos falar e baixinho.
Autor: Paulo Fafe