twitter

A inutilidade das Letras! (2)

A fala, como vimos, é uma característica própria dos homens e que os individualiza no reino animal. A pronúncia das primeiras palavras – mamã, papá… – marca o primeiro passo da grande aventura humana em sociedade.

Anos mais tarde, a escola ajudará, paulatinamente, a discernir os sons e a identificá-los com a correspondente representação gráfica. E logo se entrará em contacto com os autores mais representativos das Letras de um povo, de uma nação!

É assim que o jovem se vai integrando na sociedade mais alargada, transpondo, com naturalidade, as fronteiras da Família, ecossistema único e insubstituível do seu crescimento harmonioso, numa perspectiva holista, para usar um termo hoje muito repetido.

Bem se pode dizer que as Letras nos acompanham desde o berço. E ao colo de nossos pais iniciamos a sua aprendizagem. Por isso, é talvez chegado o momento de nos entendermos acerca de que Letras estamos a falar.

Para isso, em primeiro lugar, vamo-nos socorrer do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, um dicionário on-line, adaptado às novas tecnologias Web. Para a palavra ‘Letra’, dá-se como sinónimos, entre outros, “carácter escrito, impresso ou gravado do alfabeto”, “texto”, “poesia que acompanha música”.

Já para o seu plural, ‘Letras’, o primeiro dos sinónimos é Literatura; logo de seguida, nesta linha de pensamento, aparece “carreira ou profissão literária”. Neste contexto, e como aponta este dicionário, são-nos familiares designações como ‘homem de Letras’, no sentido de escritor; ‘letras humanas’, enquanto designação dada à poesia e literatura, como sinónimo de Belas Letras, Humanidades.

Para estas Letras não têm sido nada propícios os últimos tempos que se vivem. Num contexto em que as Universidades, para fazerem investigação, se vêm forçadas cada vez mais a recorrer a financiamento de empresas privadas e multinacionais, visando apenas um fim utilitário, o estudo das Letras, das denominadas Humanidades, vai ficando para segundo plano… como expressão de uma inutilidade inútil: até lhes chamam simplesmente cursos de “papel e lápis”!

Curiosamente, numa entrevista à publicação periódica “Ensino Magazine”, o Comissário Europeu Carlos Moedas, que coordena o programa-quadro de investigação e inovação da União Europeia, quando lhe colocaram a questão de saber se os cursos de base tecnológica iriam substituir os chamados cursos de papel e lápis, ele respondeu: “Francamente, acho que já há muito poucos cursos de lápis e papel.

O digital está em todo o lado e os cursos de humanidades não se podem excluir. O historiador do futuro terá como base o lápis e papel, mas ele terá que fazer "text and data mining", tem que saber tratar dados, fazer estatísticas, etc.

Vemos hoje nas engenharias e na medicina que o cruzamento com o mundo digital é cada vez mais forte. No futuro, todos os cursos resultarão da interceção entre o lápis e o papel e o digital. Todos os cursos e todas as profissões estão a mudar”.

O papel e o lápis ainda hoje simbolizam, para muitos de nós, um momento fundamental no crescimento da pessoa humana, a escolarização. O acto de escrever ajudava-nos a estudar, por exemplo, a tirar apontamentos durante as aulas.

Mas também nos pode remeter para o acto de falar, pois a melhor forma de aprender a falar bem é escrever: «a pena é o melhor e o mais eficiente mestre da arte de falar», diz Cícero no seu tratado Do Orador (I.33.150). E como é tão natural o uso das Letras, nem nos apercebemos da sua importância, do seu valor, da sua utilidade!


Autor: António Maria Martins Melo
DM

DM

3 fevereiro 2018