Os números da pandemia transmitidos pelas televisões levou-nos a uma habituação de tragédia que fez, em cada um, uma espécie de normalidade. Como uma mentira dita muitas vezes até faz de verdade, a mesma coisa vista muitas vezes torna-se uma banalidade. Já há quem, mudando de canal, tivesse encontrado um meio para fugir a este massacre de mortos, internados em cuidados intensivos. Como em qualquer hábito toda a coisa parece natural e, depois disto, vem o encolher de ombros ou, como fazem algumas pessoas, tornam-se insensíveis. Será precisa esta divulgação diária como um fatalismo a que nos não podemos furtar? Ou esta divulgação diária tem subjacente a ideia de aterrorizar as pessoas para não facilitarem os seus comportamentos? Falo por mim e a resposta é que bastavam duas comunicações por semana, à guisa de balanço, a título informativo, para satisfazer a curiosidade. Talvez para aqueles que continuam a transitar na via pública sem máscara nem distanciamento social, seja preciso mais avisos. Mas se isto bastasse já tinham mudado de comportamento. Logo o aviso diário não é caminho de convicção. Então é bater-lhes na carteira. Um dia destes andava uma senhora agente da polícia municipal a registar as matrículas de viaturas que estavam em transgressão de estacionamento. E fazia-o eletronicamente certamente para multas futuras. Ora, se em vez de uma agente andassem mais algumas pelas ruas e quando vissem alguém sem máscara e sem justificativo médico para a não usar lhe exigissem a identificação para multa a pagar na esquadra da polícia, talvez a pandemia decrescesse na proporção direta à aplicação das coimas. Coimas pesadas porque se leves não passam de palmadinhas. Isto correria de boca em boca e teria o efeito do eco que se repercute de quebrada em quebrada e se ouve longe e por muita gente. É um caso a estudar, mas pelas palavras que nos dizem quando lhes viramos acintosamente e de propósito as costas, é preciso atuar. Outros processos, outros meios, outras alternativas, seja como for, os resistentes ao uso da máscara têm de ser chamados à pedra. Donde lhes vem a arrogância? Da impunidade, já se vê.
Autor: Paulo Fafe