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A fraternidade não pode esperar

  1. Irmãos. Eis a condição mais bela que em nós foi depositada por Deus. Eis, portanto, o trato mais autêntico que podemos ter entre nós.

Nem sempre, porém, nos queremos como irmãos. E, muito raramente, agimos como irmãos.

  1. A fraternidade apresenta uma fundura – e uma âncora – transcendente. Somos irmãos porque temos o mesmo Pai.

A humanidade procede da divindade, de que é imagem e semelhança (cf. Gén 1, 26). É, pois, pela fraternidade que mais visibilizamos a primordial paternidade.

  1. Por vezes – a bem dizer, quase sempre – são as tragédias que nos acordam para a nossa constitutiva (embora também obscurecida) fraternidade.

Na sua última encíclica, o Santo Padre sinaliza que «a pandemia do Covid-19 despertou […] a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos».

  1. Daí a preocupação de delinear osalicerces – e até de propor um programa – para uma humanidade (efectivamente) guiada pela fraternidade.

É que, por deformação pluritentacular, propendemos a encolher a fraternidade à família e aos que partilham interesses.

  1. Trata-se do «mundo dos sócios», denunciado pelo Sumo Pontífice.

No fundo, nem sempre sabemos que todos somos irmãos. E – o que é mais grave – temos uma portentosa dificuldade em agir como irmãos.

  1. Por conseguinte, é hora de «recomeçar». As dificuldades, «que parecem enormes, são a oportunidade para crescer e não a desculpa para a tristeza inerte que favorece a sujeição».

Contudo – ressalva o Papa Francisco –, «não o façamos sozinhos, individualmente».

  1. Se estamos estruturalmente ligados, porque teimamos em desligar tantos do essencial? A chave está no amor que, por (sobre)natureza, é oblativo, não possessivo.

Evocando São Tomás, o Santo Padre emoldura o amor «como um movimento que centra a atenção no outro “considerando-o como um só comigo mesmo”».

  1. É por isso que «o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum».

Num mundo crescentemente global, «ainda estamos longe duma globalização dos direitos humanos mais elementares».

  1. Daí que a política «não possa deixar de colocar entre os seus objectivos principais a eliminação efectiva a fome». Importa não esquecer que «a fome é criminosa, já que a alimentação é um direito inalienável».

Tudo Isto implica o reconhecimento do outro como pessoa, como irmão. «A partir deste reconhecimento – feito cultura –, torna-se possível a criação de um pacto social».

  1. Carecemos urgentemente desse pacto. A fraternidade não pode esperar mais.

Ou crescemos como irmãos ou nos despedaçamos no nosso intratável – e insuportável – egocentrismo!


Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

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20 outubro 2020