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A Democracia: desde a Grécia Antiga

A presença dos cidadãos na Assembleia era remunerada, como sabemos. Porém, quem não chegasse a tempo e horas, e isso pode ler-se na comédia de Aristófanes, As Mulheres no Parlamento, não tinha direito a receber o trióbolo. Deste passo pode inferir-se, segundo alguns historiadores, que esta generosa retribuição trouxe uma grande afluência de cidadãos, de tal forma que excedia em muito a capacidade da Pnix. Por isso, houve necessidade de recorrer a uma corda vermelha para afastar os excedentários. Paradoxalmente, uns trinta anos antes, há notícia do uso desta corda encharcada em vermelho com uma finalidade completamente distinta, que era a de marcar os cidadãos ausentes da assembleia. Essa marca vermelha, exibida em público, era penalizada com uma multa. Isto havia de passar-se numa época em que começava a generalizar-se o desinteresse pelos assuntos políticos. Ora esta atitude dos cidadãos foi objecto de crítica no teatro da época, como se pode ver na comédia de Aristófanes, Os Acarnenses, representada pela primeira vez em 425 a. C., durante o período da Guerra do Peloponeso, que havia de opor a cidade democrática de Atenas à oligarquia de Esparta. Esta comédia tem por protagonista um velho lavrador, de nome Diceópolis, a quem a vida amarga do campo se dulcifica diante de tamanha desilusão: uma vez na cidade, sente que ninguém se interessa pela coisa pública, pelo bem comum. Num longo monólogo a abrir esta comédia, o velho lavrador vai desfiando as suas alegrias e desgostos, bem mais numerosos estes últimos, «às centenas», se comparados com «as alegrias, essas poucas, bem poucas mesmo». E, para grande desilusão sua, chega cedo à Pnix, onde se reúne habitualmente a Assembleia: «Mas, desde que tomo banho, nunca os olhos me arderam tanto com a lixívia, como agora, quando, num dia de assembleia principal, e manhãzinha, venho aqui encontrar a Pnix vazia, enquanto eles palram na ágora e depois, como podem, lá vão escapando à corda vermelha», para fugirem à denúncia pública da sua ausência. Mas o desinteresse é tão grande que até já contaminou os próprios dirigentes da cidade: «Nem os prítanes vieram ainda – acrescenta Diceópolis –. Até eles vão chegar atrasados! E depois, quando vierem – já se sabe! –, vá de se disputarem uns aos outros os lugares da frente, aos magotes, numa correria. Lá a paz e o modo de a conseguir é o que menos os preocupa». Num tempo de guerra, que traz sempre a devastação aos campos, base de sustentação do povo, ganha particular relevo a busca da paz, a principal razão que arrastou o velho Diceópolis até à Assembleia, na cidade de Atenas. Por isso, são bem claras as suas palavras: «Ora cá estou eu desta vez decidido – e bem decidido! – a berrar, a intervir, a insultar os oradores, se algum falar de outro assunto que não seja a paz». É esta a sua disposição de espírito. E logo depois entram os primeiros cidadãos, e a que horas! Revelaram-se premonitórias as palavras do velho lavrador: «Mas aí estão os prítanes. Já é meio-dia! Eu não vos tinha avisado? Ora aí está o que eu vos dizia. É quem mais disputa os lugares da frente». E, finalmente, inicia-se a Assembleia. Ora aqui está uma das mais veementes críticas ao funcionamento da Assembleia naquela época: os prítanes, responsáveis pelo seu regular funcionamento, apresentaram-se já o dia ia bem alto, isto é, por volta do meio-dia! Bastante tarde, claro! Como se sabe, na comédia do mesmo autor, As Mulheres no Parlamento, podemos ver algumas referências sobre a hora matutina do início das sessões da Assembleia. Que era bem cedo, como se deduz destas palavras de Praxágora, de incentivo às suas companheiras: «Vamos lá! Temos de decidir o que é preciso fazer, enquanto ainda há estrelas no céu. A assembleia a que nos propomos assistir é logo de manhãzinha», pela alvorada, acrescentamos nós. Uma outra referência importante ao longo desta peça é a menção ao galo como despertador natural para os que se têm de levantar cedo para tomarem parte na assembleia. É assim que a primeira mulher do Coro se dirige às suas companheiras: «É mais que tempo de ir andando, que ainda agora o arauto, vínhamos nós a chegar, fez ‘cocoricó’ pela segunda vez». De manhã é que se começa o dia, recorda-nos a sabedoria popular!
Autor: António Maria Martins Melo
DM

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2 dezembro 2017