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A Cultura humaniza as cidades (2)

Na minha crónica anterior, evidenciei a importância da Cultura na humanização das cidades o que constitui um belo ponto de partida para a construção de uma Capital Europeia da Cultura. Salientei que os pensadores do futuro de Braga podem começar por responder a perguntas como estas: a Cultura pode transformar? O indivíduo pode transformar-se através da Cultura e das Artes?

É verdade. M. Lúcia de Arruda Aranha, no seu livro Cultura e Humanização, recorda uma ideia de portas largas para a encontrarmos na História de Braga, que agora se apresenta como pré-candidata a Capital Europeia da Cultura.

As crianças na Índia não tiveram oportunidade de se humanizar enquanto viveram com os lobos, permanecendo, portanto, ‘animais’. O processo de humanização só foi iniciado quando começaram a participar do convívio humano e foram introduzidas no mundo do símbolo pela aprendizagem da linguagem” — escreve Lúcia de Arruda Aranha na sua obra.

Mas existem mais exemplos da humanização dos povos e das cidades através da Cultura, que nos são dados, entre outros, por Murray Bookchin, no seu livro O anarquismo pós-escassez. Murray Bookchin salienta que, há muitos anos, nos Estados Unidos, Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os índios das Seis Nações. Ora, como as promessas e os símbolos da educação sempre foram muito adequados a momentos solenes como aquele, os seus governantes enviaram cartas aos índios para que enviassem alguns de seus jovens às suas escolas. Os chefes responderam com um agradecimento e uma recusa. A carta ficou conhecida porque alguns anos mais tarde Benjamin Franklin decidiu divulgá-la. Eis o trecho que interessa para o entendimento da importância da Cultura:

(…) Nós estamos convencidos, — disseram os chefes dos Índios das Seis Nações – que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração. Os nossos sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa ideia de educação não é a mesma que a nossa.

(...) Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltaram para nós, eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar um veado, construir uma cabana e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores da Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens”.

Se entendemos que o homem culto é aquele que tem instrução, que teve acesso à produção intelectual da civilização a que pertence (ciência, filosofia, literatura, artes em geral), também é verdade que muitas vezes, só porque não frequentou os bancos escolares, é classificado como inculto.

Este modo de pensar a Cultura resulta de uma sociedade hierarquizada, que separa o trabalho humano em actividades intelectuais e manuais, que valoriza as primeiras e despreza as últimas. Em Braga, o ponto de partida para a Capital Europeia pressupõe uma outra forma de Cultura e, a avaliar pelo conselho estratégico criado, o Município deu um primeiro passo em falso.

O Conselho Estratégico é constituído por especialistas e figuras incontornáveis como Francisco José Viegas, antigo secretário de Estado da Cultura e escritor; Isabel Pires de Lima, antiga ministra da Cultura e professora catedrática; Maria João Bustorff, antiga ministra da Cultura e professora universitária; Luís Braga da Cruz, antigo ministro da Economia e actual vice-presidente do Conselho de Administração da Fundação de Serralves; António Ponte, director regional de Cultura do Norte e Manuela Martins, vice-reitora da Universidade do Minho.

Mas é de facto pouco abrangente, deixando escapar as verdadeiras forças no terreno, que são a juventude, religião, ruralidade, associativismo, criadores, entre outros. O que nos vale é saber que este primeiro passo em falso tem pouca força e está a tempo de ser arrepiado.

O passado de Braga merece mais amanhã, como demonstraremos em próxima crónica. Quanto mais não seja para que os nossos vindouros não nos acusem de sermos totalmente inúteis, e não termos servido como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros.


Autor: Artur Feio
DM

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19 janeiro 2021