Como todos sabemos, o mundo coetâneo, com o progresso científico, proporcionou ao homem grandes avanços na conquista de soluções para as suas necessidades e abriu também um sem número de portas no aproveitamento das infinitas riquezas que a natureza lhe pode proporcionar. Apesar disso, o homem não sabendo, por vezes, dominar a tentação de endeusamento próprio e, na ânsia de resplandecer perante o mundo, em vez de canalizar as descobertas para benefício da humanidade, utiliza-as para o aviltamento ou para a destruição de si próprio e da sociedade. No seu dia a dia, vai violando os mais básicos princípios da racionalidade, da ética e da moral. Nesta avidez de prepotência e de brilho, nem sequer as instituições de solidariedade social ficam imunes. Lá vai aparecendo uma ou outra, cujos responsáveis se deixam conspurcar pela sujidade da corrupção, da gestão danosa, do esbanjamento ou do desvio de dinheiros e até da promiscuidade com alguns detentores do poder. Engendram convites inicialmente muito bondosos e bem intencionados, mas depressa os minam com o veneno de interesses dúbios que, em certos casos, vão degenerando pelo contágio com um compadrio complascente e corrosivo. Certos fins benéficos de algumas instituições são, deste modo, muito desvirtuados. Parece que, na sociedade atual, não é assim muito raro encontrar um gestor desonesto.
No entanto, confiando ainda na eficiência da Justiça e também no arrependimento sincero dos prevaricadores, nomeadamente nesta quadra natalícia, estes grandes problemas também se podem tornar em excelentes oportunidades para a correção de situações anómalas. Pelo alerta da consciência, podem aproveitar-se muitas enormidades para chamar à responsabilidade os seus autores, despertando-lhes uma séria reflexão sobre as exigências éticas de cada momento. Assim, poder-se-á evitar o adormecimento letal em que mergulharam, devido à euforia mórbida que formaram nos períodos de regalias e de bem-estar desonestamente adquiridos.
Não se podem fechar os olhos perante os grandes desafios humanos. Se não os soubermos interpretar ou se não os ouvirmos atentamente, eles podem triturar-nos, quando menos o pensarmos. Há tanta gente em letargia permanente ou, o que ainda é pior, em contínua perseguição dos outros, usando inadequadamente os meios ou privilégios que as suas funções e a sociedade lhe facultam. Quantas potencialidades e quanta técnica são utilizadas para anestesiar o próprio homem! Há mesmo muita gente interessada em atormentar, enganar e explorar o seu semelhante. Estes estados negativos de coisas, em vez de serem adequadamente resolvidos, agravam-se, quando certos responsáveis, guiados pela sua imperícia ou incompetência gananciosas, tentam solucioná-los por vias tortuosas, contornando-os, de modo a sair deles airosamente (e muitas vezes conseguem-no!). Pensam que esta é a melhor forma de docilizar as pessoas. Assim, os oportunistas vão amealhando fortuna, enquanto os contribuintes e muitos benfeitores, na sua bondosa e sempre desejável oferta de donativos, continuam a alimentar, indiretamente, o fausto desses sanguessugas sociais que atuam sem qualquer escrúpulo. Se os responsáveis cultivarem os grandes princípios éticos, em vez de apenas os proclamarem incongruentemente, as instituições e as coletividades encontrarão a autêntica via para a adequada solução dos seus problemas. A desonestidade intelectual (e comportamental) é um dos principais problemas da sociedade contemporânea. Muitas pessoas não se regem pelas verdadeiras normas éticas. A amoralidade transformou-se num fenómeno social que trespassou o âmago das relações humanas. No entanto, a técnica nunca pode sobrepor-se à ética.
Autor: Artur Gonçalves Fernandes
A cultura da contaminação entre o associativismo e a política
DM
21 dezembro 2017